Há 20 séculos, um espanhol que havia sido questor, pretor, senador e cônsul de Roma, além de tutor de imperadores, sentou-se para escrever um pequeno tratado sobre a brevidade da vida. Foi ali que ele deixou escrito que “Não é que nosso tempo de vida seja curto, mas sim que o desperdiçamos”.
Essa frase atravessou décadas e décadas, cravando-se na mente de milhares de pessoas e iluminando suas vidas. Ou, simplesmente, preenchendo páginas da internet que reúnem platitudes inspiradoras.
Nos últimos meses, a internet se encheu de frases de Sêneca. A que abre este texto é uma delas, mas não a única. Há outras como: “Se você quer encontrar a verdadeira felicidade, não a procure no grande nem no novo, mas na serenidade que a simplicidade traz”, “não há vento favorável para quem não sabe para onde vai”, etc.
Faz sentido recorrer a pessoas de 2.000 anos atrás para resolver nossos problemas de hoje em dia?
Surpreendentemente, pode ser que sim. Foi isso que o professor de filosofia Christopher Gill se perguntou alguns anos atrás: e se todas essas falas filosóficas forem além? “Até que ponto nós, os modernos, podemos reconhecer nesses ensaios uma resposta verossímil à doença mental?”, questionava ele.
A resposta dele, após estudar os estóicos e os aristotélicos, é que os textos de Sêneca — e, de modo geral, esses “ensaios filosóficos” — foram concebidos para funcionar como um análogo psicológico do antigo regime médico. Aquilo que hoje chamaríamos de “gestão do estilo de vida” ou “medicina preventiva”.
E, por isso, para além da “filosofia pop” dos últimos anos, é sim possível encontrar algo de valor em todos esses textos clássicos.
Em 1965, quando entrou na Academia Chinesa de Medicina Tradicional, a química Tu Youyou iniciou uma longa carreira analisando um a um todos os remédios que a milenar civilização chinesa havia selecionado.
A maioria deles era pura pseudociência, claro. Uma mistura de superstição, credulidade e placebo. No entanto, escondidas no meio da charlatanice, havia verdadeiras joias. O melhor exemplo é a artemisinina, um tratamento revolucionário contra a malária. Um tratamento que lhe rendeu o Nobel em 2015.
Ele foi vendido como um Nobel para a medicina tradicional, sim; mas, na realidade, foi um Nobel ao trabalho lento de triagem, teste e descarte da cientista de Ningbo. É isso que deveria ser feito com a filosofia prática de gregos e romanos.
E, neste caso, parece que Sêneca tinha razão. Em primeiro lugar, porque temos vieses sistemáticos que nos forçam a adiar e desperdiçar tempo. Em segundo lugar, porque grande parte do “tempo perdido” nem sequer é algo consciente: é pura “fricção cognitiva” (interrupções, multitarefa, resíduos de atenção, etc.). E por fim porque, segundo as evidências disponíveis, quando reduzimos a sensação de falta de tempo, o bem-estar aumenta.
Ou seja, não é tanto que nos falte tempo, mas que não temos uma vida “bem vivida”.
Essa ideia se encaixa também no esquema geral da filosofia estóica. Sob todo o arcabouço naturalista da filosofia dos antigos estóicos, havia, acima de tudo, uma questão ética: um imperativo de viver de acordo com a natureza (uma visão, por sinal, muito racionalista da natureza).
Nesse sentido, os estóicos costumavam prestar atenção ao que o ser humano podia ou não podia fazer: dado que você tem um controle limitado sobre a duração da sua vida, deve se concentrar em como a vive. diziam eles. Ao mesmo tempo, convidavam seu público a ordenar sua conduta por meio de um critério moral, à força de atenção e paz de espírito.
Imagem | The blowup | Hermenpaca
Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.
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