Experimentos com animais: a ciência ainda não tem um plano B

A experimentação com ratos continua sendo uma das grandes dores de cabeça da ciência

Experimentos em animais / Imagem: Matthew Mejia
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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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A pesquisa científica é muito necessária para que uma sociedade avance com novos tratamentos para aliviar doenças, por exemplo. Mas há um grande problema por trás disso que ainda persiste e que, para muita gente, pode ser incompreensível: o uso de animais de laboratório para fazer os testes desses novos avanços antes de realizá-los em humanos. 

Apesar de vivermos em uma época em que a inteligência artificial e a bioengenharia dominam o paradigma da sociedade, seguimos dependendo de um marco concebido em 1959, atualmente em vigor, para validar se um fármaco é seguro ou não.

Esse marco regulatório se baseia no princípio dos 3R proposto por Russell e Burch há mais de 60 anos: Substituição, Redução e Refinamento. Uma teoria que, à primeira vista, parece bastante nobre, já que, em poucas palavras, pode ser resumida assim: se você pode não usar animais, não os use; se tiver de usá-los, use o menor número possível; e, se os usar, cause a eles o menor dano possível.

No entanto, como a própria ciência tem analisado, esse marco se transformou em algo “procedimental”. Ou seja, tornou-se uma lista de tarefas burocráticas que legitima o uso de animais sob o pretexto de que se trata de um mal necessário que devemos assumir, queira-se ou não, para continuar avançando como sociedade.

A ética

As análises bioéticas feitas sobre esse tema colocam o foco no tipo de estudos que são aprovados para o uso de animais. Ou seja, não se analisa se o estudo vai contribuir muito ou pouco para o conhecimento científico, mas sim como o experimento proposto está desenhado.

Dessa forma, se um experimento está bem desenhado, ele é aprovado para usar animais, mesmo que sua contribuição para o conhecimento seja marginal ou insignificante. Algo que cria um “buraco ético”: seguimos aceitando um dano animal certo em troca de um benefício humano incerto ou difuso.

Se a ética nos empurra a mudar, a tecnologia deveria nos dar a ferramenta para isso. É aqui que entram em cena os NAMs (New Approach Methods), que se concentram em simulações de organismos por IA, órgãos em um chip ou organóides.

Dessa forma, podemos entender esse avanço como o cultivo de minicérebros ou rins humanos em laboratório para trabalhar com eles. Algo que, no papel, parece uma grande ideia, já que estaríamos testando fármacos diretamente em células humanas, eliminando o problema de fazer testes em uma espécie diferente.

O problema

Quando se entra nos detalhes técnicos, encontramos um obstáculo. Como explicam os especialistas, essas tecnologias cobrem nichos específicos, como, por exemplo, o dano que um fármaco pode causar ao fígado, mas não conseguem replicar a situação completa. Quando se testa um medicamento, é preciso observar como todos os sistemas interconectados influenciam uns aos outros, e não apenas os efeitos em um órgão.

Os principais problemas encontrados nessas simulações podem ser resumidos em:

  • Nelas, não há possibilidade de recriar um sistema sanguíneo que, ao mesmo tempo, limpe o tecido e o nutra, como ocorre no organismo real.
  • Elas não possuem sistema imunológico nem nervoso que possam reagir ao fármaco ou gerar dor em um órgão.
  • Em um chip com um “órgão” dentro, não é possível simular o efeito do fármaco ao longo de vários anos.

Com todos esses pontos, há campos importantes, como o das doenças autoimunes (quando o organismo ataca as próprias células), em que os testes em animais são insubstituíveis. Tudo isso porque é necessário observar a interação simultânea de todos os órgãos em um ser vivo.

Atualmente, existem diferentes organizações que tentam evitar que um medicamento possa matar uma pessoa, como a FDA nos Estados Unidos e a EMA na Europa. Ambas as agências, para aprovar um ensaio de um medicamento em humanos, exigem dados de segurança massivos que são obtidos a partir dos próprios animais.

Dessa forma, as alternativas não são usadas de maneira massiva porque não são validadas por esses organismos, que exigem em suas normas o uso de modelos animais — uma postura que perpetua o sistema. Com isso, a ciência fica dependente dos animais para continuar desenvolvendo fármacos que melhorem a vida dos cidadãos. Tudo isso porque nenhum comitê dá mais valor à vida de um rato do que à de um humano.

No curto prazo, não veremos uma grande mudança nesse aspecto. Os organóides e a IA não parecem que vão substituir de uma vez os modelos animais, mas sim atuar como sistemas complementares para reduzir o número de animais usados nos laboratórios.

Imagens | Matthew Mejia

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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