A internet decidiu que 2016 foi um ano ótimo e que vale a pena lembrar; mas há um problema: não foi nada disso

É tendência relembrar 2016 nas redes sociais; isso é um problema de percepção coletiva e é sério

A internet decidiu que 2016 foi um ano ótimo e que vale a pena lembrar. Mas há um problema: não foi nada disso.
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Fabrício Mainenti

Redator

A estética de 2016 está voltando com força total: filtros que imitam o Instagram daquela época (segundo a Wikipédia, existem mais de 200 milhões de vídeos usando filtros que reproduzem seu visual), tendências que revivem fotos daquele período, recriações do verão do 'Pokémon GO' e homenagens e lembranças de David Bowie

Usuários da Geração Z, muitos deles adolescentes na época, estão reconstruindo 2016 como uma era de ouro (houve um aumento de 450% nas buscas pelo termo "2016" no TikTok). A contradição é gritante: naquele mesmo ano, diversos veículos de comunicação o declararam um dos piores da história recente.

O que aconteceu?

Em 10 de janeiro, David Bowie morreu; depois dele, vieram Prince, Leonard Cohen, George Michael e Carrie Fisher. Em 23 de junho, o Reino Unido votou pela saída da União Europeia. Em 8 de novembro, Donald Trump venceu a eleição presidencial dos EUA. Veículos de comunicação como Slate e Newsweek questionavam se aquele havia sido o pior ano da história. Menos de uma década depois, aquele mesmo ano se tornou objeto de saudade.

O tiro de largada

A morte de Bowie em 10 de janeiro marcou o ano desde o seu início. Dois dias antes, ele havia lançado 'Blackstar', um álbum agora interpretado como uma despedida, mas que na época passou despercebido em sua dimensão testamentária. O choque foi imediato: um artista que escondeu seu câncer por 18 meses desapareceu sem aviso prévio, e memes preencheram esse vazio quase que instantaneamente. Os artistas mencionados anteriormente seguiram o mesmo caminho, e cada morte reforçou a mesma ideia: 2016 estava amaldiçoado.

Desequilíbrio

Trump e o Brexit destruíram as expectativas de progresso e abertura que dominavam o discurso político ocidental. Em 'O Futuro da Nostalgia', em 2001, Svetlana Boym distinguiu entre "nostalgia restauradora" (que busca reconstruir um lar mítico) e "nostalgia reflexiva" (que se deleita na saudade sem a intenção de recuperar nada). 

A nostalgia por 2016 é do primeiro tipo: inventa um ano que nunca existiu. Boym destacou que a nostalgia restauradora "não se reconhece como nostalgia, mas como verdade e tradição". É precisamente isso que acontece quando o TikTok recria o verão de Pokémon GO como se fosse idílico.

Isso já foi dito

Teóricos refletiram sobre o fenômeno de lembrar de 2016 apenas dez anos depois. David Foster Wallace documentou na década de 1990 o que chamou de "nostalgia do presente": o desejo de ansiar por algo que ainda não terminou. 2016 concretiza esse paradoxo: tornou-se objeto de nostalgia antes mesmo de ser processado historicamente, enquanto suas consequências políticas permanecem ativas.

A distância temporal necessária para a nostalgia, geralmente de duas ou três décadas, foi comprimida a ponto de quase desaparecer.

Retromania

É impossível não mencionar "Retromania", o ensaio de Simon Reynolds de 2011, no qual ele argumentou que, desde os anos 2000, a cultura pop havia invertido seu curso: em vez de gerar um futuro, dedicava-se a reativar o passado. Reynolds documentou reuniões de bandas, reedições de luxo, festivais de revival e samples nostálgicos.

Quinze anos depois, sua tese se intensificou: nenhuma sociedade jamais foi tão obcecada pelos artefatos culturais de seu passado recente. O retorno a 2016 confirma seu diagnóstico: uma década é tudo o que basta para desencadear a nostalgia.

Hauntologia

Mark Fisher explorou essa ideia em "Os Fantasmas da Minha Vida", onde desenvolveu o conceito de "hauntologia", cunhado por Derrida: somos habitados por futuros que nunca se materializaram. Fisher, que faleceu em 2017, argumentou que a cultura contemporânea havia perdido sua capacidade de imaginar alternativas ao presente. 

O passado não é recuperado; seus fantasmas assombram um presente incapaz de se projetar para o futuro. A nostalgia por 2016 personifica essa paralisia: um ano definido por sua natureza catastrófica é desejado porque há uma falta de vocabulário para articular futuros desejáveis.

Modo nostalgia

Fredric Jameson já havia antecipado esse fenômeno em "Pós-modernismo: Ou A Lógica Cultural do Capitalismo Tardio", em 1991, descrevendo o "modo nostalgia": a cultura pós-moderna reproduz estilos do passado, esvaziando-os de referências históricas e reduzindo-os a meras superfícies estéticas. Instagram e TikTok aceleram esse processo.

O que era presente ontem agora é conteúdo vintage disponível para consumo. Lembramos das playlists do Spotify de 2016 e do verão de "Pokémon GO", mas não das partes ruins. O algoritmo fabrica uma versão adocicada do passado que elimina o conflito.

Poderia ser pior

2026, por exemplo. A nostalgia por 2016 revela uma fuga de horrores muito mais presentes: os de 2026. Aquele ano foi ofuscado como um "ano ruim" porque, uma década depois, Trump retorna à presidência de forma muito mais virulenta, com ataques ao direito internacional e invasão de países, a guerra na Ucrânia não dá sinais de acabar, Gaza enfrenta um desastre humanitário que envergonha o planeta, a polarização política e midiática se radicalizou, a habitação se tornou inacessível...

Carrie Fisher, que faleceu em 2016. Carrie Fisher, que faleceu em 2016.

Se em 2016 alguns consideravam um exagero falar de uma deriva autoritária, 2026 personifica esse exagero: os alarmes que pareciam hipérboles revelaram-se proféticos. A nostalgia por 2016 não é inocente: é o reconhecimento implícito de que a situação piorou, de que aquele ano, com todos os seus desastres, era preferível ao presente.

Está chegando

O ciclo está se acelerando. Se 2016 já é objeto de nostalgia em 2026, qual ano será nostálgico em 2030? 2020, o ano da pandemia global? 2024? A cultura está presa em um ciclo vicioso em que o presente se devora antes mesmo de ser digerido, em que a capacidade de imaginar alternativas atrofiou a tal ponto que só conseguimos olhar para trás. Mesmo quando o que vemos para trás é o desastre.

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