O crescimento do cabelo parece ser um processo simples na ciência, em que as células se multiplicam na raiz e empurram o fio para fora do couro cabeludo. Mas um estudo recente conduzido por pesquisadores da Queen Mary University of London, em parceria com o setor de Pesquisa e Inovação da L’Oréal, mostrou que essa lógica não funciona bem assim.
Usando microscopia 3D em tempo real, a equipe observou folículos capilares humanos vivos em laboratório e descobriu que o fio não é empurrado, e sim puxado para cima por um sistema celular em movimento espiralado. A pesquisa, publicada na revista Nature Communications, abre novas possibilidades para o desenvolvimento de tratamentos contra a queda de cabelo, ao mudar completamente o entendimento sobre como o crescimento capilar acontece na prática.
O cabelo cresce porque células se movem, não porque se multiplicam
Para entender o que realmente acontece dentro de um fio de cabelo em crescimento, pesquisadores decidiram observar o processo bem de pertinho. Em vez de análises estáticas ou cortes de tecido, a equipe acompanhou folículos capilares humanos vivos, mantidos em laboratório, usando microscopia 3D em tempo real, uma técnica que consegue registrar o comportamento das células enquanto o crescimento acontece.
A expectativa inicial era confirmar o modelo clássico da biologia capilar, que afirma que o fio cresce porque as células se dividem na base do folículo e empurram o cabelo para fora do couro cabeludo. Mas as imagens revelaram algo diferente: o crescimento do fio parecia depender de um movimento organizado de células ao redor da haste do cabelo.
Essas células pertencem à bainha radicular externa, uma camada que envolve o fio ao longo do folículo do cabelo. O que chamou a atenção dos cientistas foi o padrão desse deslocamento: elas se movem em uma trajetória espiral descendente, enquanto o cabelo é puxado para cima. Esse mecanismo cria uma força contínua de tração, funcionando como um pequeno motor biológico que sustenta o crescimento do fio. Essa dinâmica vai contra o conhecimento básico da biologia capilar, mostrando que o crescimento do cabelo depende muito mais de forças mecânicas e do movimento celular coordenado do que de outros fatores, como divisão celular, sinais bioquímicos e estímulos hormonais.
O crescimento do cabelo depende da actina, não da divisão celular
Para testar se a divisão celular era mesmo a responsável direta pelo crescimento do cabelo, os cientistas fizeram um experimento. Eles bloquearam a multiplicação das células dentro do folículo, esperando que o crescimento parasse. O resultado, porém, mostrou que o cabelo continuou crescendo quase normalmente.
A mudança veio mesmo quando a equipe interferiu na actina, uma proteína essencial para o movimento e a contração das células. Nesse caso, a taxa de crescimento do fio despencou em mais de 80%. Modelos computacionais confirmaram que a força de tração gerada pelo movimento coordenado das células da bainha radicular externa é fundamental para que o cabelo cresça na velocidade observada. Ou seja, o crescimento capilar não depende apenas de produzir novas células, mas de manter essa engrenagem celular funcionando corretamente.
Entenda como a descoberta pode mudar os tratamentos contra a calvície no futuro
Os pesquisadores acreditam que essa nova descoberta pode mudar totalmente o foco das terapias capilares contra queda de cabelo. Isso porque, ao invés de atuar apenas sobre hormônios ou tentar estimular a divisão celular, os novos tratamentos vão focar no movimento das células, a organização do folículo e as forças físicas que sustentam o crescimento do fio.
Embora o estudo tenha sido realizado com folículos humanos cultivados em laboratório, os pesquisadores acreditam que a técnica de imagem desenvolvida também vai permitir testar medicamentos e produtos com mais precisão, observando em tempo real como eles afetam o funcionamento do folículo. Isso pode resultar em tratamentos mais eficazes e acessíveis, baseados em como o cabelo realmente cresce.
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