Basta um piscar de olhos. Um dedo escorrega no teclado, dois números são invertidos, o dedo indicador pressiona a tecla Enter. Em 8 de dezembro de 2005, um deslize tão cotidiano desencadeou um caos financeiro sem precedentes na Bolsa de Valores de Tóquio. É a história de um operador que fez exatamente o oposto do que deveria e de uma arquitetura de software que, teimosamente, rumou para o abismo.
Um erro de digitação com consequências graves
É uma manhã de quinta-feira no banco de investimentos japonês Mizuho Securities. Um operador recebe a ordem de vender um lote de ações da J-Com, uma empresa de serviços de pessoal recém-listada na bolsa. Especificamente, a ordem é: 1 ação ao preço de 610.000 ienes (cerca de 5 mil dólares na época). Uma tarefa rotineira e simples. Mas, ao digitar os dados na tela de ordens do software de negociação, acontece o pesadelo de todo corretor: o operador inverte os campos de entrada para a quantidade de ações e o preço.
Em vez de uma ação por um valor alto, ele digita:
Venda: 610.000 ações ao preço de 1 iene cada (equivalente a cerca de 1 centavo de dólar).
Com esse único erro de digitação, o banco passa a oferecer, de repente, 40 vezes o volume total de ações existentes da J-Com a um preço equivalente a menos de um centavo por ação.
- Ordem planejada: 1 ação x 610.000 ienes = 610.000 ienes
- Ordem real: 610.000 ações x 1 iene = 610.000 ienes
Embora o resultado matemático geral pareça idêntico à primeira vista, o impacto no mercado é completamente diferente.
O software que não conseguia dizer não
A história poderia ter terminado aí. Softwares modernos geralmente contam com verificações de plausibilidade. Se um sistema detecta que um usuário está inserindo dados completamente fora dos parâmetros normais de mercado, ele bloqueia o comando.
Na verdade, o software da Mizuho Securities exibiu uma janela de aviso. O sistema perguntou: "Tem certeza de que deseja executar esta ordem?" Mas, na correria do dia a dia das negociações, em que segundos decidem os lucros e as mensagens de aviso fazem parte do ruído de fundo constante, o operador simplesmente ignorou o aviso.
Foi uma falha clássica de design de UX: um aviso que pode ser ignorado com um simples clique não detém uma pessoa sob pressão no momento crucial. O desastre transferiu-se então para os servidores da Bolsa de Valores de Tóquio (TSE). Assim que a ordem absurda entrou no sistema, a direção do Mizuho percebeu o erro fatal. Em questão de minutos, o banco tentou três vezes cancelar a ordem de venda equivocada pelo terminal.
Mas, neste caso, o erro humano deparou-se com uma falha grave de software no sistema central da bolsa. O sistema da TSE não conseguia processar solicitações de cancelamento para ordens que já estavam em execução. Em vez de interromper a sequência descontrolada, os servidores simplesmente ignoraram os cancelamentos e continuaram, obstinadamente, a executar o comando.
Enquanto os departamentos de TI tentavam desesperadamente interromper a operação nos bastidores, o inevitável aconteceu no mercado: sistemas computadorizados de negociação de alta frequência de outras empresas de investimento e day traders ultrarrápidos perceberam a oportunidade de compra absurdamente vantajosa. Em questão de minutos, algoritmos de compra automatizados absorveram as ações da J-Com, que estavam sendo vendidas a preço de banana.
O preço das ações da J-Com despencou vertiginosamente, gerando pânico no restante do mercado. Como ninguém sabia se a queda repentina de preço se devia a uma falência colossal ou à ação de hackers nos sistemas, operadores do mundo todo começaram a vender ações japonesas em pânico. O principal índice, o Nikkei, caiu quase 2% naquele dia. Somente após minutos que pareceram uma eternidade, a bolsa de valores conseguiu suspender manualmente a negociação das ações da J-Com. Mas, a essa altura, já era tarde demais.
Quem paga pela falha?
Como a Mizuho Securities vendeu muito mais ações do que existiam, o banco teve de recomprar a diferença no mercado a um preço elevado para cumprir os contratos. Quando a poeira baixou, o banco registrou uma perda de 40,5 bilhões de ienes numa única manhã, o que equivalia a cerca de 335 milhões de dólares americanos à taxa de câmbio da época.
O incidente desencadeou anos de repercussões legais e técnicas. De quem era a culpa? Do corretor que cometeu um erro de digitação? Do banco cujas redes de segurança falharam? Ou da bolsa de valores, cujo software se recusou a usar o freio de emergência?
Em 2009, um tribunal em Tóquio decidiu que a bolsa tinha a maior parte da responsabilidade. Como seu sistema havia bloqueado as ordens de cancelamento devido a um erro de software, a Bolsa de Valores de Tóquio teve que pagar à Mizuho cerca de 120 milhões de dólares em indenização. O chefe da Bolsa de Valores de Tóquio renunciou em consequência do escândalo.
Matéria traduzida e adaptada do site parceiro GameStar Tech
Ver 0 Comentários