Projeto que está recuperando blocos do Farol de Alexandria do fundo do mar quer reconstruir monumento de forma digital

Pesquisadores esperam resolver algumas das grandes incógnitas que cercam o monumento, como sua resistência a terremotos

Farol de Alexandria
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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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O Farol de Alexandria foi erguido no início do século 3 a.C. e, ao longo de 1.600 anos, desafiou terremotos, tempestades e a passagem do tempo até que, pouco a pouco, desapareceu sob as águas do Mediterrâneo. Agora, essa que foi uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo pode estar voltando graças a uma combinação de arqueologia submarina, engenharia avançada e tecnologia.

O projeto internacional PHAROS acaba de recuperar 22 enormes blocos pertencentes à estrutura original. Algumas dessas peças pesam entre 70 e 80 toneladas, de modo que a operação esteve mais próxima de um salvamento industrial do que da arqueologia tradicional de escova e pincel.

Entre os elementos resgatados pela equipe franco-egípcia liderada pela arqueóloga Isabelle Hairy, do CNRS, estão lintéis, ombreiras, soleiras e grandes lajes de granito que faziam parte da entrada monumental do farol. Os arqueólogos querem utilizá-los para resolver um quebra-cabeça que permanece incompleto há séculos: reconstruir digitalmente uma das maiores obras de engenharia da Antiguidade e descobrir como ela conseguiu permanecer de pé por mais de um milênio.

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Para conseguir isso, os engenheiros não vão se limitar a criar renders, mas utilizarão ferramentas de gestão do ciclo de vida do produto e de simulação tridimensional avançada. É o mesmo tipo de software empregado em testes de estresse estrutural nos chassis de supercarros ou para calcular a aerodinâmica de aviões antes de fabricar um protótipo físico.

Envolver esse nível de engenharia reversa permitirá analisar em profundidade a incrível obra de Sóstrato de Cnido, o arquiteto grego que, sob o reinado dos primeiros Ptolomeus, ergueu o farol com cerca de 100 metros de altura. Aquela infraestrutura, a mais alta do mundo durante séculos, foi essencial para a segurança e o comércio do Mediterrâneo ao centralizar o tráfego marítimo que chegava ao porto de Alexandria.

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Um farol reconstruído digitalmente

No entanto, o ponto central do projeto não está nos blocos recuperados agora, nem nos mais de cem elementos arquitetônicos que já haviam sido digitalizados no fundo do mar durante a última década, mas no que acontecerá com eles: cada peça será escaneada por meio de fotogrametria de alta precisão para gerar modelos tridimensionais exatos.

A partir daí, os engenheiros da Fundação Dassault Systèmes criarão um gêmeo digital completo do monumento. Graças a essa reconstrução virtual, os pesquisadores esperam resolver algumas das grandes incógnitas que cercam o farol. Entre elas, como uma estrutura dessa magnitude conseguiu permanecer de pé durante cerca de 1.600 anos em uma área especialmente exposta a movimentos sísmicos.

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Por enquanto, algumas hipóteses apontam que o segredo foi o uso de chumbo fundido nas juntas dos blocos para absorver as ondas de choque e conferir certa flexibilidade ao conjunto. Se isso for confirmado, a arqueologia estará documentando o ancestral direto dos modernos isoladores sísmicos e elastômeros que a engenharia civil instala hoje nos pilares de viadutos e nas fundações de arranha-céus para que possam se deformar sem colapsar.

Uma maravilha que também era uma máquina logística

O Farol de Alexandria não era apenas um monumento espetacular e à frente de seu tempo, mas também funcionava como uma infraestrutura crítica para a navegação e o comércio da Antiguidade. Manter sua luz visível a dezenas de quilômetros exigia uma complexa cadeia de suprimentos capaz de transportar combustível de forma constante até o topo da torre.

Diversas pesquisas apontam para a existência de uma enorme rampa helicoidal interna pela qual mulas e burros subiam carregados com madeira, resinas e, sobretudo, carvão vegetal. A partir dos terraços superiores, sistemas de polias e guinchos mecânicos completavam o transporte vertical da carga até a câmara de combustão, configurando um projeto tão sofisticado que muitos especialistas o consideram uma das grandes obras de engenharia civil do mundo antigo.

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A escolha do carvão vegetal obedecia a um rígido critério de eficiência energética e logística: ao oferecer um poder calorífico muito superior ao da madeira verde, reduzia drasticamente o volume de carga e o número de viagens diárias necessárias. Além disso, garantia uma combustão limpa e livre de fuligem, um fator crítico para evitar que a fumaça preta ofuscasse os grandes espelhos refletivos de bronze polido que ampliavam o alcance da luz à distância.

A importância do projeto PHAROS vai além do próprio farol, já que, se a reconstrução digital for bem-sucedida, essa mesma metodologia poderá ser aplicada a portos romanos submersos, cidades desaparecidas sob o mar e naufrágios históricos espalhados por todo o planeta. O esforço demonstra que algumas das maiores obras de engenharia da história ainda podem revelar seus segredos graças à tecnologia do século 21.

Imagens | National Geographic, GEDEON Programmes

Este texto foi traduzido/adaptado do site Motorpasión.


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