Há mais de um ano, a Europa se acostumou a viver num equilíbrio instável, dependendo dos Estados Unidos para sua segurança por meio da OTAN, para sustentar o esforço ucraniano e, em última instância, para a arquitetura estratégica que a protege desde a Guerra Fria.
Agora, a Groenlândia desfez parte da retórica.
Europa e contra-ataque
A crise eclodiu quando Trump reacendeu a guerra comercial usando a Groenlândia como pretexto e ultimato: ou se aceita algum tipo de "acordo" que aproxime a ilha dos Estados Unidos, ou tarifas de 10% e depois de 25% serão impostas a um grupo de países europeus, escolhidos por um gesto mínimo, porém simbólico, de participação em manobras no Ártico com a Dinamarca.
O que até recentemente muitos na Europa preferiam interpretar como bravata ou táticas de negociação torna-se uma mensagem explícita de pressão política que não deixa mais espaço para a fantasia de apaziguamento. E aí reside a verdadeira mudança: o que a guerra na Ucrânia não conseguiu alcançar plenamente (uma resposta frontal europeia à retaliação dos EUA), a Groenlândia está conseguindo, porque o golpe não é contra um adversário geopolítico, mas contra aliados, e porque coloca a Europa diante de uma escolha brutal: aceitar a chantagem e normalizá-la, ou responder, mesmo que doa, sabendo que continua dependendo de Washington para sua segurança e para conter a Rússia.
A bazuca europeia
Não há dúvida de que a reação europeia não nasce do entusiasmo, mas da sensação de que não há muitas outras saídas: a Groenlândia não pode ser "entregue", nem a Dinamarca pode vender um território autônomo contra a vontade de sua população, e a própria ideia de que uma aquisição possa ser forçada por ameaças comerciais abre uma caixa de Pandora que afeta todo o continente. Nesse contexto, Bruxelas está desempoeirando pela primeira vez sua ferramenta mais dura, o chamado instrumento anticoerção, concebido precisamente para punir a pressão política por meio de medidas econômicas rápidas e enérgicas.
Dois caminhos se apresentam, marcando uma mudança de mentalidade: reativar um pacote de tarifas no valor de 93 bilhões de euros já preparado e, caso a escalada continue, ir além de bens e atingir serviços, investimentos e até mesmo o acesso ao mercado europeu para grandes empresas americanas. A mensagem europeia tenta ser dupla, buscando uma desescalada que evite um confronto aberto, mas deixando claro que, se Trump transformar o comércio em método de extorsão, a Europa também poderá responder com firmeza.
O conflito que ninguém queria
O mais preocupante neste episódio não é apenas o impacto econômico de uma guerra tarifária, mas a fratura estratégica que ela implica: a Europa sabe que um conflito comercial sério com os Estados Unidos afetaria a OTAN, a Ucrânia e toda a arquitetura de dissuasão contra a Rússia.
É por isso que o continente está agindo com cautela, convocando reuniões de emergência, preparando o terreno para negociações em Davos e adiando até mesmo medidas de distensão comercial previamente acordadas. Mas, no fim das contas, Trump não está negociando uma porcentagem ou uma cláusula: ele está elevando uma meta territorial a uma prioridade nacional, apresentando-a como uma exigência para "melhorar a segurança" do Ártico e, implicitamente, negando que a Europa possa garanti-la. Nesse contexto, a Europa tenta não romper a ponte, mas parte do pressuposto de que não pode mais agir como se ela fosse indestrutível.
A soberania da Groenlândia
Enquanto Washington fala em "aquisição", a Groenlândia insiste que seu futuro lhe pertence, que muitos querem mais independência, não mudar sua bandeira. Esse ponto é essencial porque explica por que a Europa não quer ceder: não se trata apenas de orgulho dinamarquês ou formalismo, mas de soberania e legitimidade democrática, bem como de um precedente explosivo dentro da própria União.
A ameaça de tarifas, portanto, funciona como uma tentativa de isolar a Dinamarca e transformá-la no elo mais fraco, embora tenha o efeito oposto: reforça a ideia de que, se você é atacado por uma questão estratégica, você responde como um bloco. E aí reside o paradoxo: em vez de dividir, a pressão força a coordenação, especialmente entre Paris e Berlim, que adotam uma linha mais dura, enquanto outros pedem tempo para ver se Trump oferece uma "saída" antes que a punição seja ativada.
A "bomba de Ozempic"
Em meio ao ruído de bases, submarinos e rotas árticas, surge uma arma inesperada.
A Dinamarca não é uma potência comercial, mas exporta para os Estados Unidos produtos que impactam diretamente o bolso e o dia a dia das pessoas, o que transforma qualquer tarifa em uma espécie de bumerangue político. Metade de suas vendas recentes para Washington se concentra em medicamentos, vacinas, insulina e produtos relacionados, pois o país abriga a Novo Nordisk, o motor da economia dinamarquesa e a fábrica dos fenômenos globais Ozempic e Wegovy.
Essa dependência faz da Dinamarca uma espécie de "estado farmacêutico" de fato: seu crescimento privado e o emprego giram em grande parte em torno desse setor, e qualquer turbulência comercial afeta ambos os lados. Se Trump encarecer esses medicamentos, o impacto não fica restrito à Europa: ele chega ao mercado americano como inflação na área da saúde e agitação social, justamente onde a margem política é mais frágil. É por isso que o Ozempic, mais do que um produto, funciona como um símbolo da interdependência real que faz de uma guerra tarifária não apenas uma alavanca, mas sim uma granada.
Lego e outros lembretes
O mesmo efeito é observado com a Lego e outros produtos dinamarqueses adorados nos Estados Unidos, ou com setores menos visíveis, mas críticos, como aparelhos auditivos e certos equipamentos médicos. No mundo real, as cadeias de suprimentos não respeitam fronteiras emocionais: muitas peças são fabricadas em diferentes países, montadas em outros e vendidas em mercados que dependem da logística global.
Isso significa que as tarifas penalizam não apenas o exportador "inimigo", mas também empresas, distribuidores e seus próprios consumidores. Trump pode imaginar pressionar a Dinamarca para dobrá-la, mas a pressão se infiltra nos preços e nas interrupções no próprio mercado americano, além de corroer a relação com um aliado que já oferece acesso militar à Groenlândia e que historicamente tem sido leal, mesmo em guerras americanas, pagando um custo humano desproporcional em termos per capita.
A Europa e sua alavanca
O resultado final, por ora, é uma Europa entrando num terreno que vinha evitando há anos: assumir que o comércio não é apenas economia, mas poder, e que, se os Estados Unidos o utilizam como instrumento de intimidação, o continente precisa aprender a responder ou estará fadado a ser pressionado repetidamente. Essa é a essência e o cerne desta crise: não se trata de uma simples batalha por uma ilha gelada, mas de um teste para saber se a Europa consegue se defender sem se fragmentar e se a aliança ocidental permanece uma comunidade de interesses ou se transforma em uma relação de poder.
Nesse sentido, a Groenlândia alcançou o que uma invasão não havia conseguido tão claramente na relação com Washington: que a Europa, pela primeira vez em muito tempo, está disposta a responder com retaliação e a mostrar que também possui essa "bazuca" com um projétil mais explosivo do que um tanque ou um míssil.
Imagens | RawPixel, Chemist4U, Roderick Eime
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