Entrar no mercado de trabalho nunca foi uma missão simples para os jovens. No Brasil, um estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV) mostra que, embora os indicadores de emprego tenham melhorado nos últimos anos, pessoas entre 18 e 29 anos ainda enfrentam mais dificuldades para conseguir uma vaga, recebem salários menores e estão mais expostas à informalidade.
Na China, porém, o desafio ganhou proporções ainda maiores diante de um número recorde de recém-formados e de um mercado incapaz de absorver tantos profissionais qualificados. Diante dessa realidade, o presidente Xi Jinping tem recorrido a um antigo provérbio chinês para defender que a nova geração aprenda a enfrentar as dificuldades. A mensagem, no entanto, tem sido recebida com críticas por muitos jovens que afirmam enfrentar um mercado cada vez mais restrito.
Milhões de recém-formados disputam vagas cada vez mais escassas na China
A dificuldade para conseguir o primeiro emprego não é uma exclusividade dos brasileiros. Na China, essa realidade também preocupa e afeta milhões de recém-formados. Todos os anos, milhões de estudantes concluem a universidade e passam a disputar um mercado de trabalho cada vez mais competitivo.
Segundo reportagens do The New York Times e do The Guardian, a combinação entre a desaceleração da economia, a transformação do mercado e o avanço da inteligência artificial tem reduzido significativamente as oportunidades para quem está começando a carreira. Ao mesmo tempo, o número de graduados continua crescendo, o que amplia a concorrência por vagas de nível inicial. Os principais fatores que explicam esse cenário incluem:
- Número recorde de formandos. Cerca de 12,7 milhões de estudantes devem concluir o ensino superior na China neste ano, aumentando ainda mais a disputa por empregos;
- Poucas vagas para profissionais iniciantes. Muitos recém-formados relatam enviar centenas de currículos antes de conseguir uma única entrevista;
- Mudanças no perfil das empresas. Áreas como artes, humanidades e idiomas perderam espaço, enquanto setores ligados à inteligência artificial, semicondutores, robótica e veículos elétricos são as que concentram a maior parte dos investimentos;
- IA e automação substituindo tarefas básicas. Especialistas ouvidos pelo The Guardian afirmam que funções de entrada, tradicionalmente ocupadas por jovens, estão entre as primeiras a serem automatizadas;
- Empregos mais precários. Sem conseguir vagas compatíveis com a formação, muitos graduados acabam migrando para a chamada economia "gig", trabalhando como entregadores, motoristas ou em ocupações temporárias para garantir renda.
Para muitos jovens, o sentimento é o de frustração. Depois de anos investindo tempo e esforço na própria educação, eles enfrentam um mercado desafiador, que oferece salários menores, jornadas mais longas e poucas perspectivas de crescimento profissional.
O que significa "comer amargura" e por que esse provérbio não foi bem visto pelos jovens
Diante da dificuldade sentida pelos jovens do país para ingressar no mercado de trabalho, o presidente da China, Xi Jinping, passou a resgatar um antigo ditado popular chinês: "comer amargura". A expressão faz parte da cultura do país há gerações e transmite a ideia de que suportar dificuldades, sacrifícios e momentos de sofrimento é um caminho necessário para alcançar resultados melhores no futuro. O presidente chinês tem utilizado esse conceito em discursos direcionados à juventude, incentivando os recém-formados a aceitarem empregos considerados menos prestigiados, trabalharem no campo ou encararem ocupações manuais como parte do desenvolvimento pessoal.
A mensagem, porém, tem dividido opiniões. Muitos jovens argumentam que não rejeitam o esforço nem o trabalho pesado. O problema, segundo eles, é que a dificuldade atual não decorre apenas de falta de dedicação individual, mas de mudanças estruturais na economia chinesa. Por isso, ao invés de enxergarem o provérbio como um incentivo à perseverança, parte dessa geração interpreta o discurso como uma tentativa de transferir para os trabalhadores a responsabilidade por um mercado que oferece cada vez menos oportunidades.
A situação é delicada porque muitos dos empregos sugeridos pelo governo representam um caminho que pais e avós tentaram evitar ao investir na educação dos filhos: os subempregos. Para uma geração que cresceu ouvindo que o diploma universitário seria o caminho para a ascensão social, aceitar ocupações de baixa remuneração ou fora da área de formação significa abandonar um sonho construído ao longo de toda uma vida.
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