Nos McDonald’s da China, as mesas individuais agora estão entre as mais disputadas. Diferentes das comuns, essas mesas são altas e apresentam uma divisória que cria uma sensação de falsa intimidade para quem come sozinho.
O fenômeno tem sido amplamente retratado em redes sociais como Xiaohongshu e Weibo, os equivalentes ao Instagram e ao Twitter: o veículo de comunicação de Xangai Kankan News reuniu alguns dos melhores em um vídeo.
Essas divisórias ajudam a evitar a situação constrangedora de encontrar um conhecido e ter que cumprimentá-lo. Você se senta ali discretamente e come sem interação.
O veículo de comunicação de Xangai reúne depoimentos de profissionais da psicologia que explicam o fenômeno: a interação social é vista como arriscada em comparação com os chats, onde é possível editar ou apagar o que se diz; e essas mesas funcionam como um refúgio após a exposição social inevitável do trabalho, onde há a obrigação de ser simpático e sorrir por imposição social.
As mesas individuais (Kankan News)
Para a juventude da sociedade chinesa, a interação social se tornou um fardo. O China Youth Daily entrevistou 2.000 pessoas entre 18 e 35 anos e o resultado foi contundente: 64% se sentem perdidos quando conhecem alguém offline. O percentual é ainda maior em uma pesquisa de 2023 com 1.438 chineses nascidos entre as décadas de 1980 e 2000: mais de 80% afirmaram sentir ansiedade nas interações sociais.
A revista Time colocou o fenômeno em perspectiva, porque ele vai muito além de preferir comer sozinho: a sociedade chinesa passou de um modelo em que tradicionalmente se vivia perto da família (até sob o mesmo teto) para um cenário em que as gerações mais jovens iniciam a vida de forma solitária após deixar suas casas em áreas rurais para trabalhar nas grandes cidades. A expressão máxima e mais trágica disso é o sucesso em downloads do aplicativo “Você está morto?”.
As mesas individuais (Kankan News)
A economia da fobia social
A China viveu uma mudança brutal na quantidade de pessoas que moram sozinhas, com mais de 100 milhões de lares unipessoais, segundo o relatório anual de 2024 do Escritório Nacional de Estatísticas da China. Em 2030, estima-se que esse número suba para algo entre 150 e 200 milhões.
E a economia está se adaptando a esse novo paradigma: de acordo com a empresa de pesquisa iResearch, a economia da ansiedade social na China já movimenta aproximadamente 172 bilhões de dólares em iniciativas como carrinhos com placas de “Não incomode” para evitar a aproximação de promotores de produtos nos supermercados Freshippo, além de academias e lojas 24 horas sem funcionários, onde tudo é gerenciado por códigos QR, sem precisar trocar uma palavra com ninguém.
Imagem | Bruna Santos
Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.
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