Em agosto de 1960, as cadelas Belka e Strelka foram lançadas pela União Soviética a bordo da Korabl-Sputnik 2 e passaram 27 horas em órbita antes de retornar vivas à Terra. A missão levou duas cadelas vira-latas encontradas nas ruas de Moscou, além de outros animais e organismos, para testar como seres vivos reagiriam às condições de um voo espacial. Durante a quarta volta, Belka passou mal e apresentou sinais de estresse, um episódio que ajudou os cientistas a definir os cuidados para o primeiro voo espacial tripulado, realizado meses depois por Yuri Gagarin. Depois do retorno, as duas se tornaram celebridades e Strelka ainda teve um de seus filhotes enviado à Casa Branca como um curioso gesto diplomático da Guerra Fria.
Belka e Strelka foram escolhidas nas ruas de Moscou para enfrentar um treinamento nada comum
Antes de Belka e Strelka chegarem ao espaço, a União Soviética já havia enviado outros cães para testar os limites dos voos orbitais. O caso mais conhecido era o de Laika, lançada em 1957 e morta em órbita sem possibilidade de retorno. Para a missão seguinte, porém, o objetivo era diferente: os cientistas precisavam descobrir se um organismo poderia permanecer no espaço e, principalmente, voltar vivo para a Terra.
A escolha dos soviéticos seguia uma lógica bastante prática. Enquanto os Estados Unidos utilizavam macacos em seus experimentos, a equipe soviética procurava cadelas vira-latas nas ruas de Moscou. Segundo eles, esses animais já estavam acostumados a situações adversas, como frio, fome e diferentes condições ambientais, além de serem considerados mais fáceis de treinar. Havia ainda outros critérios bastante específicos:
- Peso: até 6 kg;
- Altura: no máximo 35 centímetros;
- Idade: aproximadamente entre 2 e 6 anos;
- Pelagem: de preferência clara, para facilitar a visualização pelas câmeras;
- Sexo: fêmeas, porque era mais simples desenvolver os sistemas de coleta de fezes e urina para elas.
Belka e Strelka passaram por uma preparação gradual. As duas tiveram o espaço de confinamento reduzido, receberam eletrodos para monitoramento e foram acostumadas às roupas e às sobrecargas que enfrentariam durante o voo. Belka era considerada a mais ativa e sociável da dupla e apresentava bons resultados nos treinamentos. Strelka, por outro lado, era mais tímida e retraída, mas também conseguiu passar pelos testes.
Até os nomes eram diferentes antes da missão. No instituto, elas eram chamadas de Vilna e Káplia. Pouco antes do lançamento, receberam os nomes de Belka, associada a “esquilo”, e Strelka, “flecha”.
27 horas no espaço tiveram comida em forma de geleia e um susto na quarta volta
Em 19 de agosto de 1960, Belka e Strelka decolaram do cosmódromo de Baikonur a bordo da Korabl-Sputnik 2, também conhecida como Sputnik 5. Elas não estavam sozinhas: a missão carregava camundongos, ratos, insetos, plantas, fungos, sementes e microrganismos, todos usados para investigar os efeitos do voo espacial sobre diferentes formas de vida.
A missão também trouxe uma novidade importante para os pesquisadores: pela primeira vez, era possível acompanhar as cadelas por vídeo durante o voo. Os sinais fisiológicos foram monitorados desde a decolagem. A respiração e os batimentos cardíacos aumentaram durante o lançamento, mas voltaram ao normal depois que a nave entrou em órbita.
Até a alimentação precisou ser adaptada. As cadelas recebiam uma espécie de geleia nutritiva, que substituía comida e água. Os recipientes eram posicionados abaixo delas e se deslocavam até as cadelas no momento programado. Segundo o relato da missão, Belka e Strelka comeram tudo sem grandes dificuldades.
O momento mais delicado veio durante a quarta volta ao redor da Terra. Belka ficou inquieta, tentou escapar das tiras de contenção e vomitou. Seus registros médicos, entretanto, continuavam normais. O episódio deixou os cientistas em alerta porque mostrava que o problema não estava necessariamente ligado a uma alteração grave nos sinais vitais, mas poderia envolver estresse e desorientação provocados pela experiência do voo espacial.
Ao todo, Belka e Strelka permaneceram cerca de 27 horas em órbita e completaram 17 voltas ao redor da Terra. Depois disso, a cápsula retornou com as duas vivas. Quando o módulo foi aberto após o pouso, elas estavam em boas condições. O relato de um dos integrantes da equipe de resgate descreve que as cadelas reconheceram os pesquisadores e procuraram carinho, um contraste curioso com a imagem de animais submetidos a um dos experimentos mais perigosos e rigorosos da corrida espacial.
O mal-estar de Belka ajudou a definir o voo de Yuri Gagarin
O sucesso da missão tinha um significado: a União Soviética precisava descobrir se as condições encontradas no espaço poderiam ser suportadas por um ser humano. Depois de analisar os resultados, os cientistas consideraram que o voo não apresentava um perigo inevitável à vida humana. Mas o episódio envolvendo Belka mostrou que um organismo poderia reagir de maneira inesperada mesmo quando seus sinais médicos permaneciam normais.
Por isso, a equipe decidiu reduzir ao mínimo a duração do primeiro voo tripulado. O lançamento de Belka e Strelka seria o último grande teste antes da missão humana e, na sequência, Yuri Gagarin faria apenas uma volta ao redor da Terra. A relação entre os dois acontecimentos é uma das partes mais curiosas dessa história. Belka não apenas sobreviveu ao voo: sua reação durante a quarta órbita ajudou os pesquisadores a considerar os riscos de desorientação e estresse em uma missão tripulada.
Depois da viagem, as duas cadelas não voltaram ao espaço. Elas foram aposentadas e permaneceram no Instituto de Problemas Biomédicos, onde viveram até a velhice. Na década de 1960, porém, estavam longe de levar uma vida anônima: Belka e Strelka viraram celebridades na União Soviética, aparecendo em cartazes, cartões-postais e calendários.
Strelka ainda teve um filhote enviado como presente à Casa Branca
A história das duas cadelas ganhou um último capítulo inesperado. Alguns meses depois do voo, Strelka deu à luz seis filhotes saudáveis. Os animais chegaram a aparecer na televisão soviética, mas um deles acabaria envolvido em um dos episódios mais curiosos da diplomacia da Guerra Fria. A primeira-dama dos Estados Unidos, Jacqueline Kennedy, demonstrou interesse pelos filhotes. Os soviéticos decidiram então presentear a família Kennedy com um deles, transformando o descendente de uma cadela que havia acabado de voltar do espaço em uma espécie de símbolo diplomático.
O gesto era particularmente curioso porque acontecia em um período de forte disputa entre Estados Unidos e União Soviética. O filhote, chamado Puchok, foi enviado aos americanos sob uma operação bastante discreta, com documentos, vacinação e transporte acompanhado por veículos da polícia.
E foi assim que duas cadelas encontradas nas ruas de Moscou se tornaram uma das figuras mais importantes do mundo. Elas foram treinadas para suportar confinamento, vibrações, sobrecarga e horas de voo orbital; retornaram vivas e forneceram informações usadas na preparação do primeiro voo humano soviético.
Ver 0 Comentários