A queda do regime de Bashar al-Assad em dezembro de 2014 pareceu deixar a Rússia diante de um de seus maiores reveses estratégicos em décadas: sua presença na base aérea de Khmeimim e no porto de Tartus, as duas principais plataformas de onde projetava poder sobre o Oriente Médio, o Mediterrâneo e a África, foi posta em xeque. Moscou conseguiu manter uma presença reduzida na Síria, mas, enquanto negociava seu futuro naquele país, iniciou uma operação muito mais discreta do outro lado do Mediterrâneo.
A pista
Imagens de satélite analisadas em colaboração com a Agência Nacional de Inteligência Geoespacial dos EUA revelaram agora construções e expansões em seis bases aéreas líbias com uma suposta presença do Afrika Korps russo.
Estamos falando de hangares, pistas de pouso, quartéis e infraestrutura de comunicações que permitem à Rússia movimentar homens, armas e aeronaves para o Sahel, mantendo ao mesmo tempo uma presença militar no flanco sul da OTAN.
Quando a Rússia começou a perder a Síria
Por quase uma década, Khmeimim e Tartus proporcionaram a Moscou uma posição excepcional no Mediterrâneo, mas a queda de Assad forçou o Kremlin a buscar alternativas enquanto negociava com as novas autoridades sírias. A Líbia era a escolha óbvia: a Rússia vinha cultivando seu relacionamento com Khalifa Haftar há anos, e o Grupo Wagner já havia estabelecido uma presença militar significativa nas áreas leste e sul sob seu controle.
No fim, Moscou não perdeu completamente suas instalações na Síria, mas também não abandonou o plano alternativo. Ao longo de 2025, continuou expandindo sua rede líbia, transformando-a em uma plataforma que complementa a Síria e permite uma projeção muito mais profunda na África.
Seis bases como essência
A nova análise de imagens de satélite estudou as seis instalações líbias onde há relatos de presença do Afrika Korps desde sua chegada em 2024: Al-Khadim, Al-Jufra, Tamanhint, Maaten al-Sarra, Al-Qardabiyah e Brak al-Shati. Entre 2024 e 2026, foram detectadas novas construções ou reformas de hangares, edifícios, quartéis, plataformas e pistas de pouso em todas elas. Em Al-Khadim, surgiram três novos hangares e alojamentos, enquanto Maaten al-Sarra recebeu cinco hangares, dezenas de estruturas adicionais e uma pista e pátio de manobras repavimentados.
Em Al-Jufra, utilizada pelas forças russas desde 2019, as obras na pista podem permitir a operação de aeronaves maiores e mais pesadas. Estas não são seis novas bases russas construídas do zero, mas sim instalações líbias já existentes onde Moscou está consolidando uma presença militar e infraestrutura cada vez mais robustas.
Caça ruso
Caças, drones e muito mais
A infraestrutura acompanha uma presença militar que começou muito antes desses projetos de construção mais recentes. A Rússia, e anteriormente o Grupo Wagner, usaram instalações líbias para operar caças, radares e sistemas de defesa aérea. O novo destacamento permite o apoio a operações tanto logísticas quanto militares, e relatórios anteriores documentaram a transferência de MiG-29 russos para a Líbia e o destacamento de centenas de militares nessas posições.
O modelo mais antigo do Grupo Wagner está sendo progressivamente substituído pelo Africa Korps, controlado diretamente pelo Ministério da Defesa russo, o que confere ao Kremlin uma relação muito mais próxima com a estrutura que mantém essas operações. O resultado é uma rede militar distribuída pelo centro, leste e sul do país, em vez de uma única instalação grande e facilmente identificável.
Combatente rebelde sírio em posto de inspeção de veículos, guardando entrada da base militar síria de Hmeimim, arrendada pela Rússia, na província de Latakia, em 2024
A chave está no meio do deserto
Maaten al-Sarra explica particularmente bem a finalidade dessa rede. Localizada no extremo sul da Líbia, perto do Chade e do Sudão e longe da costa do Mediterrâneo, ela foi reformada com a chegada de pessoal e equipamentos ligados à Rússia e se tornou uma plataforma potencial para operações em direção ao Sahel.
Al-Khadim, Al-Jufra, Brak al-Shati e as outras instalações permitem a criação de um corredor logístico escalonado para o transporte de pessoal, armas e suprimentos para os países africanos onde Moscou aumentou sua influência. Diante de uma grande base naval russa na costa, essa constelação de aeródromos no interior exige menos concessões políticas das autoridades líbias e atrai muito menos atenção internacional.
Meses tentando responder
Washington não está observando essa expansão de longe. Em 2025, enviou dois bombardeiros B-52H para o espaço aéreo líbio para treinamento conjunto, a Marinha dos EUA fez suas primeiras escalas em um porto do país em mais de meio século, e o AFRICOM intensificou seus contatos tanto com as autoridades ocidentais quanto com Khalifa Haftar e seu filho Saddam, no leste.
Washington tentou promover a integração das forças militares das duas Líbias e também anunciou a participação do país no Flintlock 2026, seu principal exercício anual de forças especiais africanas. Por trás dessas ações, há um objetivo estratégico: reduzir a dependência de Haftar em relação a Moscou e impedir que a Rússia transforme a Líbia em um elo permanente entre sua presença no Mediterrâneo e suas operações na África.
Ter tudo
Essa é talvez a mudança mais significativa ocorrida desde dezembro de 2024. A previsão inicial era de que a Rússia precisaria da Líbia por ter perdido a Síria, mas Moscou conseguiu manter uma presença limitada na primeira enquanto continuava a se expandir na segunda, criando uma rede que se estende do Mediterrâneo até a orla do Sahel.
Sem dúvida, para os Estados Unidos e a OTAN, o problema não é mais simplesmente a capacidade da Rússia de deslocar armas e pessoal para a África: essas seis instalações também mantêm uma presença militar russa no flanco sul da Aliança, de frente para a Europa. Assim, o que começou como um plano de contingência após a queda de Assad está assumindo uma forma muito mais ambiciosa: uma infraestrutura permanente de pistas de pouso, hangares e bases dispersas com a qual Moscou pode projetar poder simultaneamente no Norte da África, no Sahel e no Mediterrâneo.
Imagem | RAF/Ministério da Defesa do Reino Unido
Ver 0 Comentários