O dia em que uma cidadezinha decidiu explodir uma baleia e fez chover entranhas na população

Florence, nos EUA, celebra todos os anos o dia em que toneladas de baleia podre foram lançadas sobre seus próprios cidadãos

Baleia explodida / Imagem: Paul Linnman
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Victor Bianchin

Redator
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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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Uma das histórias mais exageradas e gore que você pode ouvir na vida também é uma das mais engraçadas, porque, para variar, não envolve o sofrimento de nenhum ser vivo — e sim uma série de decisões infelizes e um desconhecimento sistemático das leis da física. É a história da baleia explosiva do Oregon, um evento absurdo que acaba de completar 55 anos… e que ainda é comemorado.

Em 12 de novembro de 1970, os engenheiros da Oregon Highway Division, órgão responsável pelo tráfego rodoviário, se depararam com um dilema inusitado na praia da pequena cidade costeira de Florence: dar um destino a uma baleia cachalote morta de oito toneladas que já estava há três dias se decompondo sob o Sol. Após consultar a Marinha sobre técnicas de demolição, a equipe decidiu aplicar ao cadáver uma solução direta e desastrosa: meia tonelada de dinamite (vinte caixas), na esperança de pulverizar o cetáceo. As gaivotas cuidariam de limpar os restos.

O conselho acabou não sendo dos melhores. Os fuzileiros navais deram orientações sobre demolição com explosivos, que era a especialidade deles, mas ninguém consultou biólogos marinhos ou especialistas em fauna costeira. Walter Umenhofer, um empresário local com experiência militar, avisou Thornton de que vinte caixas de dinamite eram excessivas: ele recomendava vinte cartuchos individuais ou, caso contrário, uma quantidade muito maior para pulverizar completamente o tecido orgânico. Seu conselho foi ignorado.

Boom

A detonação, às 15h45, provocou um apocalipse de areia e gordura com 30 metros de altura, lançando fragmentos de baleia em todas as direções. Blocos de tecido e músculo do tamanho de mesinhas de centro caíram sobre espectadores que estavam a uma distância supostamente segura de mais de 400 metros do ponto da explosão. Os gritos de empolgação dos curiosos se transformaram em berros de horror à medida que pedaços de tecido choviam do céu. Alguns dos blocos de gordura, com quase um metro, chegaram a esmagar o teto de um veículo. O cheiro de carne queimada permaneceu por dias e as gaivotas nunca apareceram.

A decisão de George Thornton, o responsável pela ação, não tinha base técnica desde o início. Em uma entrevista anterior, ele admitiu: “Tenho certeza de que vai funcionar. A única coisa da qual não temos certeza é de quanta dinamite vamos precisar exatamente para desintegrar essa… coisa, para que as gaivotas, os caranguejos e outros necrófagos possam limpá-la”. Thornton decidiu tratar o cetáceo como se fosse uma rocha na estrada: meia tonelada de explosivos colocados estrategicamente sob o animal, na esperança de que a força arremessasse os restos em direção ao Pacífico.

O que fazer com uma baleia

Os encalhes de cetáceos têm gerado dilemas logísticos para as autoridades costeiras há décadas. Antes do desenvolvimento de protocolos científicos unificados — que priorizam a necropsia científica em vez da eliminação rápida —, os métodos para lidar com baleias mortas eram frequentemente improvisados. As opções mais comuns incluíam enterrá-las na praia, rebocá-las para o mar aberto para afundamento ou simplesmente permitir a decomposição natural do animal. Atualmente, os métodos de disposição evoluíram: há países como África do Sul, Islândia e Austrália que ainda utilizam explosivos controlados após rebocar cetáceos para o mar, mas os EUA abandonaram essa prática. Quando 41 cachalotes encalharam perto de Florence em 1979, as autoridades as enterraram.

Em 1970, Oregon não possuía diretrizes específicas para esses casos. A Oregon Highway Division tinha jurisdição sobre as praias estaduais — uma peculiaridade administrativa derivada da consideração legal das costas como parte do sistema de rodovias públicas —, mas não possuía experiência em biologia marinha. Quando a cachalote chegou a Florence, George Thornton admitiu publicamente que havia sido designado para o caso “porque seu supervisor tinha saído para caçar”. O precedente mais próximo havia sido modesto e bem-sucedido: dois anos antes, em 1968, autoridades de Long Beach, Washington, haviam lidado com um encalhe semelhante por meio de um enterramento convencional, sem incidentes.

O vídeo inesquecível

Todo o incidente foi imortalizado pelo jornalista Paul Linnman, da KATU, que chegou ao local inicialmente frustrado pelo que considerava uma tarefa de pouca importância — até descobrir a quantidade de dinamite envolvida. Junto ao cinegrafista Doug Brazil, documentou o evento em filme de 16 mm com áudio gravado magneticamente ao vivo, um formato que, ao contrário do vídeo, preservaria sua qualidade visual por décadas.

Após o desastre, a maior parte da cachalote permaneceu intacta na praia. Os trabalhadores da Highway Division passaram a tarde enterrando manualmente os restos, incluindo enormes seções do animal que não se moveram do ponto da explosão. Thornton declarou a Bacon naquela mesma tarde que tudo havia saído bem, “exceto que a explosão cavou um buraco na areia sob a baleia”, direcionando a força para cima em vez de para o oceano. Décadas depois, Thornton continuava defendendo a operação como um sucesso técnico, distorcido pela cobertura midiática hostil.

Por duas décadas, o incidente permaneceu como uma anedota regional, até que o humorista Dave Barry ressuscitou a história em sua coluna do Miami Herald em 20 de maio de 1990. Intitulada “The Far Side Comes to Life in Oregon”, em referência à imortal série de Gary Larson, sua descrição do ocorrido apresentou ao público estadunidense o conceito de “epic fail” antes que a era digital popularizasse o termo. O Departamento de Transporte de Oregon recebeu ligações de pessoas furiosas, convencidas de que o incidente havia ocorrido recentemente.

O fenômeno transcendeu o puramente digital. Em 2015, o músico indie de Oregon Sufjan Stevens lançou a faixa Exploding Whale, na qual dizia: “Embrace the epic fail of my exploding whale” (“Aceite o épico fracasso da minha baleia explosiva”). Naturalmente, o acontecimento também apareceu em Os Simpsons, no episódio The Squirt and the Whale de 2010. Em 2020, a Oregon Historical Society encomendou uma restauração em 4K das imagens originais em 16 mm da notícia.

55 anos depois, aquele fiasco na gestão pública se transformou em folclore e patrimônio local. Em 2024, Florence declarou novembro como o “Mês da Baleia Explosiva” e a cidade celebra o aniversário com um festival que culmina nos Prêmios Superlativos da Baleia Explosiva, homenageando cidadãos de destaque no Exploding Whale Memorial Park.

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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