Um passo silencioso na nova corrida espacial: China cria o primeiro sistema para medir o tempo na Lua

Em pleno impulso do programa lunar chinês rumo a 2030, a China apresenta o LTE440, um software para sincronizar o tempo entre a Lua e a Terra

Medir o tempo na Lua / Imagem: Ganapathy Kumar | engin akyurt
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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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A Lua está prestes a deixar de ser um destino ocasional para se tornar um lugar onde muitas coisas acontecem ao mesmo tempo — isso obriga os cientistas a quebrarem a cabeça sobre como iremos operar por lá.

Quando várias naves manobram, quando se quer pousar com precisão ou quando se pensa em uma futura rede de navegação, já não basta usar o horário da Terra e fazer correções ao longo do caminho. O tempo se transforma em uma ferramenta operacional e qualquer defasagem, por menor que seja, começa a importar. Esse é o pano de fundo do passo que a China acaba de dar.

Segundo o Global Times, uma equipe do Purple Mountain Observatory desenvolveu e publicou o LTE440, um software que permite comparar diretamente o tempo na Lua com o da Terra sem recorrer a cálculos manuais. O sistema se baseia em um modelo que integra a gravidade lunar e o movimento do satélite, e a Academia Chinesa de Ciências o apresentou oficialmente como um produto utilizável em dezembro passado, não apenas como um exercício acadêmico, mas de olho em futuras operações no ambiente lunar.

Por que o tempo não corre igual na Lua

A defasagem que o software chinês tenta resolver não é uma curiosidade, mas uma consequência direta da física. Por ter uma gravidade menor, a Lua faz com que seus relógios adiantem cerca de 56 microssegundos por dia em relação aos da Terra. Essa diferença, imperceptível no curto prazo, vai se acumulando e acaba introduzindo erros crescentes se o tempo terrestre continuar sendo usado como única referência para missões que duram meses ou até anos.

Essa defasagem, por menor que pareça, tem consequências diretas quando se passa da teoria para a operação. Jonathan McDowell, astrônomo de Harvard citado pelo South China Morning Post, explicou que diferenças de apenas um microssegundo podem se tornar relevantes em sistemas de navegação, afetando os cálculos até mesmo em escalas de um minuto.

Um modelo do "Long March 10”, o sistema de lançamento que a China quer utilizar para sua primeira missão tripulada à Lua Um modelo do "Long March 10”, o sistema de lançamento que a China quer utilizar para sua primeira missão tripulada à Lua

O LTE440 calcula a relação entre o tempo de coordenadas da Lua e o tempo dinâmico do baricentro do Sistema Solar, uma referência astronômica usada para descrever o movimento dos corpos. Essa correspondência é um dos passos necessários para depois converter o tempo lunar em tempo terrestre de forma rastreável.

O marco internacional

A pressão para organizar esse problema não vem apenas da China. Em 2024, a União Astronômica Internacional adotou um marco amplo para que a Lua tenha sua própria referência temporal, diante da perspectiva de múltiplas missões operando ao mesmo tempo. Nesse contexto, o trabalho da equipe de Nanjing se apresenta como um passo de engenharia que tenta transformar essa ideia geral em uma ferramenta utilizável.

O artigo científico publicado na Astronomy and Astrophysics sustenta que o método se mantém na ordem de algumas dezenas de nanossegundos mesmo, segundo seus cálculos, ao projetá-lo para 1.000 anos.

Por outro lado, esse avanço técnico chega em um momento muito específico do programa espacial chinês. A Agência Espacial Tripulada da China (CMSA) mantém o objetivo de levar astronautas à Lua até 2030 e já concluiu a prototipagem preliminar dos principais sistemas, do foguete Long March-10 à nave Mengzhou e ao módulo lunar Lanyue.

Imagens | Ganapathy Kumar | engin akyurt


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