Sementes da história: como povos antigos carregaram uma batata selvagem pelo sudoeste americano e a espalharam por todo o continente

Um processo provavelmente intencional

Batatas
Sem comentários Facebook Twitter Flipboard E-mail
vika-rosa

Vika Rosa

Redatora
vika-rosa

Vika Rosa

Redatora

Jornalista com mais de 5 anos de experiência, cobrindo os mais diversos temas. Apaixonada por ciência, tecnologia e games.


202 publicaciones de Vika Rosa

Muito antes de a agricultura se tornar uma prática estabelecida, os povos indígenas que habitavam a região dos quatro cantos, no sudoeste dos estados unidos, já estavam moldando o meio ambiente de forma sofisticada. Um estudo publicado em janeiro de 2026 na revista PLOS One revela que a pequena e nutritiva batata four corners (Solanum Jamesii) foi transportada deliberadamente por longas distâncias há mais de 10.000 anos.

Essa movimentação ancestral não apenas ajudou a planta a sobreviver em climas variados, mas também expandiu sua área de distribuição para muito além do seu habitat natural original. Os pesquisadores acreditam que esse processo marca os estágios iniciais de uma domesticação precoce, movida por necessidades alimentares, medicinais e rituais.

Pistas genéticas

A descoberta foi possível graças a uma combinação de arqueologia de ponta e análise genética. ao examinar ferramentas de pedra polida em 14 sítios arqueológicos, a equipe liderada por Lisbeth Louderback, da universidade de Utah, encontrou evidências microscópicas que contam essa jornada:

  • Restos milenares de amido foram identificados em ferramentas usadas para processar alimentos, com algumas amostras datando de impressionantes 10.900 anos atrás.
  • Análises genéticas mostraram que as populações de batata que crescem hoje no norte (Utah e Colorado) têm origens em sementes vindas de regiões muito mais ao sul, confirmando que foram levadas por mãos humanas.
  • O estudo define uma distinção clara entre onde a planta cresceria naturalmente e onde ela passou a existir devido à intervenção humana, criando uma identidade cultural única vinculada a essa espécie.

Uma tradição preservada pelas gerações

A pesquisa foi além dos laboratórios e integrou o conhecimento tradicional indígena. entrevistas com 15 anciãos navajo (Diné) confirmaram que a batata four corners continua sendo uma parte vital da cultura atual, sendo consumida e utilizada em cerimônias espirituais.

Cynthia Wilson, coautora do estudo, ressalta que esse sistema alimentar era mantido por práticas de parentesco e mobilidade. As mulheres matrilineares, em particular, desempenharam um papel fundamental como guardiãs dessas sementes e das histórias a elas associadas, preservando o vínculo com a terra e garantindo a sobrevivência da espécie ao longo de milênios.

Longe de serem apenas coletores passivos, os povos antigos eram administradores ativos da biodiversidade, deixando um legado botânico que persiste até hoje nas mesas e rituais do sudoeste americano.

Inicio