“Porta do Inferno”, cratera em chamas no deserto de Caracum, surgiu muito depois do que se acreditava

Cratera que expele fogo e metano não foi acesa em 1971; país tenta frear impacto ambiental

"Porta do Inferno"
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Victor Bianchin

Redator
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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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No meio do deserto de Caracum, no Turcomenistão, podemos encontrar um buraco quase perfeito no solo, com aproximadamente 70 metros de diâmetro, que até hoje está coberto de chamas. A história popular afirma que, em 1971, um grupo de engenheiros soviéticos ateou fogo a uma cratera de gás que havia desabado, na esperança de que as chamas se apagassem sozinhas em algumas semanas — mas, 50 anos depois, esse poço continua queimando e, para muitos, é conhecido como a “Porta do Inferno”.

Depois de um evento que ocorreu há várias décadas, é lógico que a história sobre o que realmente aconteceu tenha sido bastante distorcida. E, neste caso, acredita-se que, em 1971, um grupo de geólogos estava procurando gás natural pelo deserto, realizando diferentes perfurações no solo, mas chegou um momento em que o solo literalmente desabou e fez com que o equipamento desaparecesse em uma grande cratera que liberava gases tóxicos.

O mais preocupante para as autoridades naquele momento era justamente o efeito nocivo que esses gases poderiam ter sobre toda a população. Por isso, os engenheiros atearam fogo para que o metano fosse consumido. Mas, até hoje, essa cratera continua ativa.

Desfazendo o mito

Diversas pesquisas tentam explicar o que realmente aconteceu nessa cratera. Um estudo, publicado em junho de 2026 na Geophysical Research Letters, utilizou imagens de satélite para reconstruir a história térmica da cavidade. E seus resultados indicaram que não havia nenhuma anomalia térmica na região antes de 1987.

A última imagem de satélite que mostra a cratera sem fogo data de 20 de setembro de 1987, enquanto a primeira evidência que temos da cratera em chamas é de 27 de janeiro de 1988. Isso demonstra de forma quantitativa que o gás foi aceso entre o fim de 1987 e o início de 1988, desmentindo categoricamente a data de 1971.

Isso muda algumas coisas importantes. Primeiro, a ideia de que os soviéticos atearam fogo ao gás em 1971 para queimá-lo durante algumas semanas pressupõe que o incêndio começou naquele ano. Se ele só aparece nas imagens 16 ou 17 anos depois, essa explicação não pode ser a história completa do fogo que vemos hoje. Aconteceu alguma coisa no final dos anos 1980.

E não se trata apenas de corrigir uma imprecisão histórica. Essa descoberta muda a interpretação ambiental de toda a cratera. Os pesquisadores conseguiram determinar que a cratera já existia em 25 de outubro de 1972, mas não conseguiram estabelecer se ela se formou em 1963, em 1971 ou em algum momento entre essas datas. Se a cratera ficou aberta e cheia de metano antes de começar a queimar, o gás não estava sendo consumido pelo fogo durante esse período. Ele estava simplesmente escapando para a atmosfera. Isso permite reconstruir de maneira muito mais realista o histórico de emissões.

O problema das emissões

O estudo realizado vai um pouco além da cronologia e investiga o problema ambiental crítico, já que as emissões de gases de efeito estufa são as protagonistas. Mais especificamente, observou-se que há mais de 40 plumas de metano emergindo do poço, com taxas de emissão altíssimas que variam entre 1.000 e 3.000 kg por hora. E isso fez com que, no período entre 2020 e 2025, fossem emitidas 71 quilotoneladas de metano.

Esse volume é enorme em escala global, já que, segundo os relatórios de monitoramento da Agência Internacional de Energia, o Turcomenistão hoje está entre os países com maior intensidade de emissões de metano no setor de gás e petróleo em todo o mundo. Além disso, plataformas internacionais da ONU, como IMEO e MARS, apontam regularmente esse país como um dos principais focos de eventos de emissão de gases detectáveis a partir do espaço.

Diante dessa pressão ambiental e do desperdício de recursos, o governo do Turcomenistão ordenou, em 2022, que fosse encontrada uma solução definitiva para apagar o vasto incêndio da cratera. Atualmente, as autoridades perfuraram poços de alívio nas proximidades na tentativa de reduzir o fluxo de gás que alimenta a “Porta do Inferno” e, embora a intensidade visível do fogo tenha diminuído significativamente graças a esses trabalhos recentes, os dados dos pesquisadores revelam uma realidade preocupante, já que essa redução visual das chamas não apresenta uma correlação clara com uma diminuição na emissão total de metano.

Imagens | Flickr

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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