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O novo cenário da guerra é um inferno: já sabemos o que sentiam os soldados na Primeira Guerra Mundial

Um vídeo nos lembra algo que os soldados sabem há um século: o pior de uma guerra é ter que aprender de novo a sobreviver

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Bárbara Castro

Redatora

Um vídeo divulgado por Donald P. Mitchell parece uma cena concebida para um filme sobre o inferno: vários drones sobrevoam uma trincheira a baixa altitude enquanto despejam sobre ela uma chuva de material incandescente que incendeia o terreno por onde passa. Trata-se, contudo, de um exercício militar na Ucrânia, e esses modelos representam uma das versões mais perturbadoras de um conflito que há anos transforma pequenos drones comerciais em armas de guerra. Observar essa gravação de fora provoca uma sensação que os combatentes conhecem há mais de um século: a de descobrir, em meio à batalha, que acabou de surgir uma tecnologia para a qual ainda não existe resposta.

Quando a guerra muda rápido demais

A Primeira Guerra Mundial foi o grande laboratório desse sentimento. Os exércitos entraram no confronto em 1914 e terminaram lutando em um cenário industrializado, dominado por artilharia pesada, metralhadoras, aviação, lança-chamas, gases venenosos e, finalmente, veículos blindados capazes de atravessar o terreno que mantinha milhões de homens encurralados nas trincheiras.

O exemplo mais brutal ocorreu em Ypres, em 22 de abril de 1915: a Alemanha abriu milhares de cilindros e liberou mais de 160 toneladas de gás cloro, formando uma nuvem esverdeada que avançou contra tropas que mal entendiam o que estavam vendo. O pânico e o desespero foram imediatos; depois vieram as primeiras proteções improvisadas, as máscaras e, com o tempo, respiradores cada vez mais sofisticados. Um ano depois, surgia outra criatura desconhecida: o tanque de guerra entrava em ação pela primeira vez em setembro de 1916. A tecnologia forçava o soldado a aprender novas formas de sobreviver enquanto o combate acontecia.

O que mais assusta não é o que mais mata

Fotografia que mostra tropas alemãs liberando gás venenoso de cilindros durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) Fotografia que mostra tropas alemãs liberando gás venenoso de cilindros durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918)

É aí que surge um paralelo bastante interessante com a Ucrânia. O gás se transformou em um dos maiores símbolos do horror da Primeira Guerra Mundial, e o gás mostarda, introduzido mais tarde, acrescentou queimaduras severas e cegueira a esse repertório. Acontece que as armas químicas nunca foram o recurso decisivo que se temia a princípio: as contramedidas evoluíram e sua eficácia diminuiu consideravelmente.

O Imperial War Museums lembra que o gás permaneceu sendo, contudo, uma arma psicológica extraordinária. O mero alarme forçava o uso imediato de máscaras, atrapalhava as operações e mantinha sempre viva a ameaça de uma morte invisível. Com os primeiros tanques de guerra aconteceu algo semelhante: eram máquinas inéditas e aterrorizantes, mas também lentas, desconfortáveis e com frequentes falhas mecânicas.

O dragão da Ucrânia

Um século depois, a tecnologia é diferente, mas a imagem volta a ser desconcertante. A Ucrânia começou a demonstrar publicamente seus drones-dragão em setembro de 2024: quadricópteros modificados para carregar termita, uma mistura geralmente composta de pó de alumínio e óxido de ferro cuja reação gera temperaturas de até 2.200 ºC. O aparelho voa lentamente sobre o alvo enquanto despeja o composto aceso, gerando aquela característica cascata branca que parece metal derretido.

Uma fila de soldados britânicos feridos durante um ataque alemão com gás na batalha de Estaires em abril de 1918, durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) Uma fila de soldados britânicos feridos durante um ataque alemão com gás na batalha de Estaires em abril de 1918, durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918)

Além disso, a ideia é assustadoramente simples. O jornal Le Monde acompanhou uma montagem em que a carga explosiva e o sistema de ignição foram acoplados a um drone comercial por meio de uma adaptação praticamente artesanal. Era uma solução tão fácil de reproduzir que especialistas já consideravam certo que a Rússia copiaria a tática rapidamente.

Como incendiar o esconderijo do inimigo

A termita resolvia um problema tático bastante específico no front ucraniano. As linhas de árvores que separam as plantações servem de cobertura para soldados, veículos, depósitos e equipamentos que tentam se esconder dos olhos que vigiam o campo de batalha do alto ininterruptamente. Os drones-dragão conseguem percorrer essas faixas vegetais por cima, queimar as copas das árvores, atingir materiais camuflados e provocar incêndios ou explosões secundárias.

O Le Monde documentou o relato de uma unidade russa que afirmou ter perdido equipamentos, armamentos, munições, veículos e geradores elétricos após um desses ataques. Isso não transforma o quadricóptero em uma arma milagrosa, já que sua maior utilidade aparece quando ele atua dentro de uma cadeia tática: ele revela ou danifica uma posição para que, em seguida, entrem em ação a artilharia e as tropas que tentarão ocupá-la.

O medo como arma de combate

O impacto físico e o psicológico também não parecem ter o mesmo peso. Nicholas Drummond, ex-oficial do exército britânico e analista militar, explicou à CNN que esses drones atendem a uma necessidade de nicho e que seu impacto é provavelmente "mais psicológico do que físico", avaliação compartilhada por outros especialistas do setor.

Essa lógica fica clara quando a situação é observada de dentro de uma trincheira: o soldado já vive sob a ameaça constante de pequenos drones FPV capazes de persegui-lo e explodir em cima dele; o drone-dragão traz o terror extra de ver o próprio abrigo começar a pegar fogo pelo teto. Até mesmo oficiais ucranianos reconheceram mais tarde que vários aparelhos podem ser usados sobre um mesmo ponto sem surtir grandes efeitos caso nada pegue fogo. A cena, sem dúvida, pode ser aterradora, ainda que o resultado prático seja modesto na maioria dos casos.

Não é sobre o drone: é sobre reaprender a sobreviver

É nesse ponto que o vídeo de Mitchell deixa de ser apenas uma sucessão de imagens impressionantes. Pode ser exagero dizer que os drones-dragão são os novos blindados e a termita o novo gás mostarda, mas repete-se aqui o mesmo padrão presente em toda guerra: a vivência de estar em um combate cuja tecnologia avança mais rápido do que as defesas de quem está na linha de frente. Em 1915, os recrutas precisaram aprender o que fazer diante de uma nuvem tóxica invadindo suas valas. Em seguida, adaptaram-se a máscaras antigás, bombardeios de artilharia, aviões e blindados.

Na Ucrânia, os militares enfrentam a mesma rotina há anos, lidando com drones de reconhecimento, modelos FPV suicidas, interceptadores e, agora, quadricópteros capazes de despejar fogo sobre suas trincheiras. Para quem assiste de longe, a cena parece ficção científica. Para os soldados encurralados lá embaixo, trata-se apenas de mais uma ameaça contra a qual é preciso aprender a se esconder.

Matéria traduzida de Xataka*

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