A restauração ambiental costuma ser vista como um processo lento e distante, mas a história de uma família no interior do Rio de Janeiro mostra o impacto prático de colocar as mãos na terra. No município de Cachoeiras de Macacu, uma fazenda que passou décadas sofrendo com o desmatamento e a pecuária extensiva se transformou em um dos maiores exemplos de reflorestamento da Mata Atlântica.
Idealizado por Nicholas e Raquel Locke, que criaram a Reserva Ecológica Guapiaçu (REGUA) em 2001, o projeto atingiu a marca impressionante de 840.000 árvores nativas plantadas.
Essa megaconexão verde recuperou mais de 600 hectares de floresta e conectou fragmentos isolados de vegetação. O resultado mais marcante desse esforço? O retorno da anta (Tapirus terrestris), o maior mamífero terrestre da América do Sul, que estava oficialmente extinto no estado do Rio de Janeiro há mais de 100 anos.
Do pasto degradado à selva renascida
A propriedade pertencente à família Locke carregava o histórico típico da degradação ambiental no Brasil: solo desgastado por anos de pasto e perda quase total da cobertura florestal original.
Com o apoio de organizações internacionais como a World Land Trust, a família decidiu inverter o processo. Em vez de criar gado, começou a produzir mudas nativas da Mata Atlântica para refazer o bioma do zero.
Ao longo de duas décadas, a recuperação da vegetação e das zonas úmidas alterou drasticamente a paisagem:
- Conexão de corredores ecológicos: Os plantios uniram áreas de mata fragmentadas, permitindo que a fauna voltasse a transitar de forma segura.
- Retorno da biodiversidade: A reserva tornou-se refúgio para centenas de espécies de aves, anfíbios e mamíferos.
- Restauração hídrica: A recuperação dos ecossistemas aquáticos voltou a atrair animais que dependem de áreas alagadas para sobrevivência.
O "jardineiro da floresta" está de volta
Acervo Projeto Guapiaçu/Vitor Marigo
Com a casa novamente arrumada, o ecossistema estava pronto para o passo mais ousado: a reintrodução de grandes espécies.
Em 2017, em uma parceria entre a REGUA, o projeto Refauna e pesquisadores do IFRJ (Instituto Federal do Rio de Janeiro), foi iniciado o programa de reintrodução das antas. O animal desempenha um papel ecológico fundamental — por ser um grande dispersor de sementes, a anta ganha frequentemente o apelido de "jardineira da floresta", garantindo que novas árvores de grande porte continuem crescendo.
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