Prêmio Nobel para... baratas: pesquisadores são premiados por descobrirem proteínas no 'leite' do inseto

Pesquisa sobre os cristais ricos em proteínas produzidos pela barata Diploptera punctata mostra que eles podem concentrar mais de três vezes a energia do leite de vaca

Barata
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Natália P. Martins

Redatora

Uma descoberta sobre um alimento bastante improvável rendeu um prêmio a um grupo de cientistas: o “leite” produzido por uma espécie de barata. Os pesquisadores investigaram os cristais de proteína formados a partir desse líquido e mostraram que eles armazenam uma quantidade surpreendentemente alta de energia.

O estudo analisou a espécie Diploptera punctata, conhecida como barata-do-Pacífico. Diferentemente da maioria das baratas, ela é vivípara e alimenta os embriões dentro do corpo com uma secreção rica em nutrientes.

“Leite” da barata é formado por cristais

A fêmea produz uma secreção esbranquiçada dentro do saco incubatório, estrutura na qual os embriões se desenvolvem. O líquido é consumido pelos filhotes ainda no estágio embrionário e chega ao sistema digestivo deles.

Cc6cd06846c96ba2ca68b5a661359a8d Foto: Cheongweei Gan/iNaturalist Research-grade Observations/GBIF

No intestino, parte dessa secreção se transforma em pequenos cristais ricos em proteínas, carboidratos e lipídios. Os pesquisadores descobriram que essas estruturas funcionam como uma espécie de reserva concentrada de nutrientes para o desenvolvimento dos embriões.

As proteínas encontradas nos cristais também apresentam diferentes características e quantidades de nutrientes, o que indica que não se trata apenas de uma fonte de proteína, mas de um alimento relativamente completo para os filhotes.

Cristal pode concentrar mais energia que o leite de vaca

Quando compararam os cristais produzidos pela barata com o leite de vaca, os pesquisadores descobriram que uma quantidade equivalente dos cristais pode armazenar mais de três vezes a energia encontrada no leite bovino.

Isso acontece porque os nutrientes ficam concentrados na estrutura cristalina, permitindo que os embriões tenham acesso a uma fonte de energia estável durante seu desenvolvimento.

Ac30fc7ad74087c8c0256e5ba26aef6f Foto: Beth Burrous/iNaturalist Research-grade Observations/GBIF

Descoberta rendeu um Ig Nobel

O trabalho foi reconhecido com o Ig Nobel de Química, premiação que celebra pesquisas científicas consideradas inicialmente curiosas ou engraçadas, mas que também podem estimular reflexões sobre a ciência.

Apesar do aspecto inusitado da descoberta, os cristais de proteína da barata despertam interesse científico por sua capacidade de armazenar nutrientes de forma extremamente concentrada. 

A descoberta não significa, porém, que o “leite” de barata esteja sendo considerado uma alternativa ao leite convencional ou que exista atualmente algum produto alimentar feito a partir dele. A pesquisa ajuda principalmente a compreender como uma espécie desenvolveu uma estratégia incomum para alimentar seus filhotes.

Imagem de capa: James Bailey/iNaturalist Research-grade Observations/GBIF

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