A sombra da corrida armamentista nuclear paira novamente, não na forma de testes subterrâneos, mas através do prisma da pesquisa em fusão nuclear. Imagens de satélite recentes revelam que a China está construindo um complexo de laser de fusão numa escala sem precedentes, um empreendimento acompanhado de perto pelas agências de inteligência dos EUA. A instalação, localizada perto da cidade de Mianyang, no sudoeste da China, levanta questões sobre suas potenciais implicações tanto para produção de energia limpa quanto para o desenvolvimento do arsenal nuclear chinês.
A existência deste projeto, denominado "Laboratório de Dispositivos Principais de Fusão a Laser", foi revelada graças à análise minuciosa de imagens de satélite por especialistas da CNA Corp, uma organização de pesquisa independente americana, em colaboração com o Centro James Martin de Estudos de Não Proliferação (CNS). As imagens mostram uma estrutura imponente com quatro braços externos destinados a abrigar os conjuntos de lasers de alta potência, convergindo para um compartimento central de experimentos. É nessa câmara que os experimentos de fusão ocorrerão, concentrando a energia do laser em isótopos de hidrogênio para desencadear uma reação de fusão nuclear.
A comparação com a Instalação Nacional de Ignição (NIF) americana, localizada na Califórnia, é inevitável. O NIF, que custou US$ 3,5 bilhões, alcançou um marco histórico em 2022 ao produzir mais energia a partir de uma reação de fusão do que a energia injetada por lasers, atingindo o famoso "limiar de equilíbrio científico". No entanto, de acordo com estimativas de Decker Eveleth, pesquisador da CNA Corp, o galpão experimental do complexo chinês seria cerca de 50% maior que o do NIF, sugerindo uma ambição ainda maior.
Esse desenvolvimento tecnológico levanta questões complexas. A fusão nuclear, em teoria, oferece uma fonte de energia limpa, abundante e praticamente ilimitada, utilizando hidrogênio, o elemento mais comum no universo. Contudo, dominar essa tecnologia é extremamente difícil e caro. O interesse da China na fusão nuclear, assim como o de outras potências mundiais, faz parte de uma busca global por uma alternativa aos combustíveis fósseis e pela garantia de sua independência energética.
E se o objetivo fosse mais amplo?
Além do aspecto energético, a pesquisa sobre fusão conhecida como "confinamento inercial" é de importância estratégica no campo das armas nucleares. O Tratado de Proibição Completa de Testes Nucleares (CTBT), assinado pela China e pelos Estados Unidos, proíbe explosões nucleares em todos os ambientes. Nesse contexto, experimentos de fusão a laser possibilitam o estudo dos mecanismos fundamentais da detonação nuclear, o aumento da confiabilidade em modelos de simulação e o desenvolvimento de novas armas sem a necessidade de testes reais.
William Alberque, analista de política nuclear do Centro Henry L. Stimson, destaca que qualquer nação com uma instalação do tipo NIF pode aumentar a confiança e aprimorar seus projetos de armas existentes, além de facilitar o desenvolvimento de modelos futuros sem a necessidade de testes físicos. Essa afirmação ressalta a área cinzenta entre a pesquisa fundamental e as aplicações militares.
Embora as autoridades chinesas não tenham respondido aos pedidos de comentários, a cautela ainda se faz necessária. A escala da instalação de Mianyang, a maior do mundo em seu tipo, é uma prova do investimento significativo e do desejo de se posicionar na vanguarda da pesquisa em fusão.
Não há motivo para preocupação
Siegfried Hecker, ex-diretor do Laboratório Nacional de Los Alamos, outro importante centro de pesquisa nuclear nos Estados Unidos, ameniza a preocupação. Para países que já realizaram inúmeros testes nucleares, como os Estados Unidos, os experimentos de fusão a laser são usados principalmente para manter a segurança e a confiabilidade do arsenal existente, afirma ele. Para a China, que realizou um número relativamente limitado de testes, a contribuição desses experimentos seria menos significativa, devido à ausência de uma base de dados empírica tão extensa.
Omar Hurricane, cientista-chefe do programa de fusão por confinamento inercial do Laboratório Nacional Lawrence Livermore, também apresenta nuances. Ele destaca que outros países, como França, Reino Unido e Rússia, também operam instalações de fusão a laser. Ele ressalta que o progresso científico é difícil de ser interrompido e que o conhecimento adquirido pode ser usado para diferentes fins.
Em última análise, a construção dessa gigantesca instalação de fusão na China não representa, por si só, uma ameaça iminente. Em vez disso, reflete um avanço científico e tecnológico, num campo onde as fronteiras entre pesquisa fundamental, energia limpa e armamentos são tênues. O monitoramento e a análise dos dados provenientes de Mianyang serão obviamente importantes para avaliar as reais implicações deste projeto, tanto para o futuro da energia quanto para o equilíbrio das forças nucleares no mundo. A observação aérea, neste caso, não se limita à contagem de mísseis, mas à decifração de equações complexas.
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