Uma pequena comunidade montanhosa na Sardenha, ilha italiana conhecida pela longevidade de seus habitantes, reúne uma das populações femininas mais longevas do mundo. Em Bolotana, um vilarejo com cerca de 2.266 habitantes, pesquisadores estimaram que 13,83% das mulheres que chegam aos 70 anos podem viver até os 100. O resultado coloca a localidade entre as regiões com maior probabilidade de longevidade feminina, atrás apenas de Hong Kong, segundo um estudo publicado em 2026 na revista científica Frontiers in Aging.
A descoberta também levanta uma questão importante para os pesquisadores: por que as mulheres dessa comunidade parecem ter uma vantagem tão expressiva em relação às de outras regiões? Por enquanto, a pesquisa identifica o fenômeno, mas ainda não determina quais fatores explicam essa diferença.
Em Bolotana, a chance de chegar aos 100 anos é quase quatro vezes maior que a média italiana
Localizada na região central da Sardenha, a cerca de 110 quilômetros da zona azul original da ilha, Bolotana surgiu como uma nova candidata a integrar o grupo de regiões conhecidas pela concentração de pessoas centenárias. O conceito de zona azul ficou conhecido em 1999, quando pesquisadores identificaram na Sardenha uma área com níveis excepcionais de longevidade, especialmente entre os homens. O novo estudo, conduzido por pesquisadores da Universidade de Sassari, na Itália, e da Universidade do Alabama em Birmingham, nos Estados Unidos, encontrou um padrão diferente em Bolotana. Por ali, o destaque está na longevidade feminina.
Com base em dados demográficos de 2021 a 2025, os pesquisadores estimaram que uma mulher de 70 anos na localidade tem uma expectativa média de vida de mais 20,85 anos. Isso supera os números registrados na província de Nuoro, onde fica o vilarejo, com 18,61 anos; na Sardenha, com 18,4 anos; e na Itália como um todo, com 18,06 anos. A diferença fica ainda mais evidente quando o cálculo considera a possibilidade de chegar aos 100 anos. Em Bolotana, a probabilidade estimada é de 13,83% para mulheres que completam 70 anos. Na província de Nuoro, o índice é de 4,33%; na Sardenha, de 4,43%; e na Itália, de apenas 3,54%.
Isso significa que a probabilidade estimada para as mulheres de Bolotana é quase quatro vezes a média italiana. O resultado também supera em mais de três vezes a estimativa observada entre mulheres nos Estados Unidos, segundo os pesquisadores. Os registros históricos reforçam a relevância da descoberta. Ao analisar pessoas nascidas no vilarejo entre 1900 e 1925, a equipe identificou 38 moradores que ultrapassaram os 100 anos de idade, uma taxa de longevidade 57% superior à média nacional italiana.
Em 2025, Bolotana tinha 12 centenários em uma população de aproximadamente 2.266 habitantes. Seis deles morreram desde então, enquanto os seis restantes eram mulheres, incluindo duas com 102 anos. O levantamento indica, portanto, que a longevidade feminina é o principal aspecto que diferencia a comunidade.
O que explica a longevidade das mulheres da Sardenha ainda é um mistério
Encontrar uma população com tantos indícios de longevidade excepcional não significa que os cientistas já tenham descoberto como seus moradores chegam aos 100 anos. O estudo de Bolotana é uma análise demográfica: ele identifica padrões de sobrevivência, mas não foi desenvolvido para comprovar as causas desse fenômeno. Os pesquisadores apontam diferentes possibilidades que merecem investigação. Entre elas estão fatores genéticos, hábitos alimentares, atividade física, apoio familiar, convivência comunitária, permanência na mesma região ao longo da vida e acesso aos serviços de saúde.
O ambiente de Bolotana também pode ajudar a orientar pesquisas futuras. A comunidade está em uma área montanhosa, onde os deslocamentos a pé fazem parte da rotina e muitos alimentos são cultivados localmente. O isolamento social, segundo os pesquisadores, também é incomum, em um contexto no qual os moradores mantêm relações próximas e cuidam uns dos outros.
Essas características, entretanto, ainda não podem ser apontadas como responsáveis pela longevidade observada. Para estabelecer uma relação entre os hábitos cotidianos e a sobrevivência até idades avançadas, é necessário mais estudos que investiguem os indivíduos e suas trajetórias com maior profundidade. O próximo passo é investigar o que torna essa comunidade tão particular. Para os pesquisadores, compreender se fatores biológicos, sociais e comportamentais ajudam a explicar a longevidade feminina poderá contribuir para estudos sobre envelhecimento saudável em outras partes do mundo.
Ver 0 Comentários