Por dentro da mansão do filme Verity: os segredos da arquitetura claustrofóbica projetada para parecer um 'delírio febril'

Inspirada em uma residência real de Nova York, a mansão combina design modernista, referências góticas e ambientes planejados para desorientar o público

Imagem produzida por IA para matéria sobre a casa do filme Verity
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Laura Vieira

Redatora
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Laura Vieira

Redatora

Jornalista recém-formada, com experiência no Tribunal de Justiça, Alerj, jornal O Dia e como redatora em sites sobre pets e gastronomia. Gosta de ler, assistir filmes e séries e já passou boas horas construindo casas no The Sims.

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Com corredores que parecem não ter fim, espelhos que escondem segredos e ambientes de ângulos incomuns, a casa de Verity, filme, estrelado por Dakota Johnson, Anne Hathaway e Josh Hartnett, foi pensada para confundir os espectadores. Na adaptação do suspense psicológico de Colleen Hoover, a arquitetura não é só um detalhe da cena, mas  parte da tensão da história.

Para criar essa atmosfera, o diretor Michael Showalter e a equipe de arte partiram de uma residência modernista à beira de um lago, em Armonk, Nova York, e utilizaram elementos da construção original com interiores feitos em estúdio. O objetivo era transformar a mansão em uma espécie de labirinto, para que isso pudesse desorientar o público e transmitir a sensação de que há sempre algo escondido. Assim, as formas, a decoração e a disposição dos cômodos ajudam a traduzir visualmente os segredos, as suspeitas e a instabilidade dos personagens.

A arquitetura da mansão mistura modernismo, formas geométricas e uma atmosfera gótica

casa do filme verity A residência modernista Beckoning Path, em Armonk, Nova York, serviu de inspiração para a casa dos Crawford em Verity

Em Verity, a casa dos Crawford é muito mais do que o endereço onde a trama se desenrola. É ali que Lowen Ashleigh (Dakota Johnson), uma escritora em dificuldades financeiras, aceita um trabalho que mudará sua vida: concluir os livros de Verity Crawford (Anne Hathaway), uma autora famosa que está incapacitada após um acidente. Para realizar a tarefa, Lowen se muda para a propriedade isolada e passa a conviver com Jeremy (Josh Hartnett), marido de Verity, e Crew (Brady Wagner), o filho do casal.

A situação começa a ganhar caminhos cada vez mais perturbadores quando Lowen encontra um manuscrito com revelações sombrias sobre o passado da família. O texto atribui a Verity confissões de comportamentos cruéis, incluindo o assassinato de uma das filhas. Jeremy acredita no conteúdo e, com a participação de Lowen, decide matar a esposa, enquanto os dois escondem da polícia o que aconteceu. Mais adiante, cartas encontradas no assoalho da casa levantam a possibilidade de que o manuscrito fosse apenas um exercício de ficção e de que Verity estivesse fingindo seu estado de saúde. O desfecho deixa em aberto qual versão corresponde à verdade.

Essa incerteza também está presente na arquitetura da casa. Michael Showalter queria que a residência transmitisse uma sensação semelhante à de um sonho febril: um lugar bonito, atraente e, ao mesmo tempo, difícil de compreender. Por isso, o desconforto é construído para além dos ambientes escuros e dos elementos típicos do terror. A escolha da locação ficou a cargo da gerente de produção Elizabeth Krekel, que procurou uma residência com personalidade própria e que ainda não tivesse sido usada em filmagens. A opção foi a Beckoning Path, uma casa modernista de meados do século XX localizada em Armonk, no estado de Nova York.

Projetada por Jens Quistgaard, designer-chefe da marca escandinava de artigos para casa Dansk, a residência foi construída para Martha e Ted Nierenberg, fundadores da empresa. A proximidade com a água, as linhas arquitetônicas marcantes e a combinação de tranquilidade com uma atmosfera inquietante fizeram dela uma escolha adequada para a história. A propriedade, que atualmente funciona como retiro de tai chi, fica fora da área de filmagem originalmente prevista para a produção. Isso aumentou os custos de hospedagem e transporte da equipe, mas os responsáveis decidiram mantê-la no projeto devido sua importância visual.

A diretora de arte Amy Williams também não tentou reproduzir literalmente uma casa descrita em detalhes no livro. Como Colleen Hoover não havia estabelecido uma planta baixa extensa para a residência, a equipe teve liberdade para explorar a arquitetura e transformar os espaços em elementos narrativos. Com isso, a casa mistura o modernismo da construção original com referências góticas e uma decoração que privilegia materiais naturais. Madeira, entalhes, motivos florais e superfícies texturizadas aparecem em diferentes ambientes, enquanto a paleta de cores se concentra em verdes, marrons e tons metálicos.

interior da casa do filme verity Localizada no piso principal, a sala de atividades foi planejada para facilitar a mobilidade de Verity

Outro detalhe importante está nas formas geométricas utilizadas para representar os personagens. A equipe trabalhou com o formato de V para Verity, círculos para Lowen e quadrados para Jeremy, levando essa lógica para a composição visual do filme. No exterior e no interior da casa, os ângulos agudos reforçam a presença dos Vs, enquanto os tetos inclinados e as proporções incomuns dificultam a percepção imediata dos espaços. O vermelho, por sua vez, foi reservado para aparições pontuais. Como a cor já tem destaque nos figurinos de Verity, ela surge em elementos específicos da decoração, como a canoa, criando contrastes intensos em meio aos tons naturais.

Corredores, espelhos e ambientes construídos em estúdio transformam a casa em um labirinto

A arquitetura de Verity fica ainda mais expressiva quando a câmera percorre os interiores criados para o filme. Além da fachada, da cozinha principal e da sala de estar, boa parte dos ambientes foi construída em estúdio. Essa decisão permitiu à equipe controlar as dimensões, os ângulos e a disposição dos cômodos para provocar desconforto sem depender de elementos sobrenaturais.

Um dos exemplos é o corredor que conduz ao quarto de Lowen. Alongado e marcado por um teto inclinado, ele foi projetado para transmitir a sensação de que algo pode estar escondido nas proximidades. Quando Jeremy conduz a escritora até o cômodo, ele caminha pela parte mais alta do corredor, enquanto ela fica na região mais baixa. A diferença de altura reforça visualmente a posição dos personagens e a sensação de desequilíbrio.

O quarto também foi pensado para despertar desconforto. A cama fica sobre uma plataforma semelhante a um altar, enquanto espelhos e vidro bidirecional introduzem uma dimensão voyeurística ao espaço. As linhas verticais e a disposição dos elementos podem lembrar grades, fazendo com que o ambiente pareça uma espécie de prisão.

casa do filme verity A cama elevada sobre uma plataforma semelhante a um altar, os espelhos e o vidro bidirecional dão ao quarto de Lowen uma atmosfera voyeurística[

No banheiro, a proposta é diferente, mas mantém a mesma lógica de estranhamento. A pedra bruta parece avançar sobre o interior e dá forma às pias e à banheira, como se o cômodo tivesse sido construído dentro de uma rocha. A ideia surgiu tanto do interesse pessoal de Williams por esse tipo de arquitetura quanto da paisagem natural encontrada na locação.

casa do filme verity No banheiro, a pedra bruta parece avançar sobre o ambiente e compõe elementos como a banheira e as pias

O escritório de Verity, por outro lado, segue uma estética aparentemente mais delicada. Michael Showalter queria um espaço acolhedor, inspirado na imagem de uma escritora trabalhando diante de um espelho de maquiagem de Hollywood. Por isso, a equipe apostou em tons suaves de rosa e pêssego, criando um ambiente glamouroso que contrasta com o conteúdo perturbador associado à personagem. 

casa do filme verity Com tons de rosa e pêssego, o escritório de Verity foi projetado para parecer um refúgio glamouroso para a escrita

Ao invés de preencher as paredes com estantes de livros, os responsáveis desenvolveram um espaço octogonal, com uma claraboia circular sobre a escrivaninha. O ambiente funciona como um santuário particular para Verity, mas esconde compartimentos e arquivos que só podem ser encontrados por quem observa com atenção.

  • Espelhos móveis: revelam arquivos e caixas escondidas, fazendo com que a decoração também participe da descoberta dos segredos;
  • Formas circulares: aparecem na organização do escritório e na claraboia, criando uma identidade visual diferente daquela encontrada nos corredores;
  • Cores suaves: produzem uma sensação inicial de acolhimento que contrasta com as revelações da trama.
casa do filme verity O quarto de Verity foi pensado para acomodar a personagem durante sua recuperação, enquanto ela permanece em uma cadeira de rodas

O quarto de Verity segue outro princípio. Como a personagem está em uma cadeira de rodas e não consegue descer as escadas, a equipe criou uma sala de atividades no piso principal, com sofá e televisão, para facilitar o acesso. O detalhe mais inquietante é que esse ambiente fica diretamente sobre o quarto de Lowen.A proximidade entre os dois espaços sugere que uma personagem poderia ouvir o que acontece no cômodo da outra. A disposição também reforça a impressão de que a privacidade é limitada dentro da casa, como se os moradores estivessem sempre próximos demais uns dos outros.

Apesar de toda a beleza da residência, a equipe não pretendia criar um lar particularmente confortável. Os móveis e objetos foram escolhidos para produzir um efeito visual marcante, mesmo que isso significasse abrir mão de parte da praticidade. Um sofá pode ser bonito sem ser aconchegante, assim como um corredor pode impressionar sem parecer convidativo.

Essa contradição resume a proposta arquitetônica de Verity. A mansão atrai o olhar com suas formas, materiais e ambientes cuidadosamente planejados, mas também dificulta a orientação e sugere que sempre existe alguma coisa escondida. Em uma história na qual os personagens não sabem em quem confiar, a própria casa passa a funcionar como mais uma fonte de dúvida, e sua beleza acaba tornando o desconforto ainda mais evidente.

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