A Graylark Technologies, empresa por trás do software Raven (anteriormente conhecido como GeoSpy e restrito a órgãos governamentais e clientes corporativos), adicionou um recurso que permite aos usuários de sua ferramenta enviar uma foto do interior de uma casa e descobrir o endereço onde ela foi tirada. O interessante é que não são necessários dados de GPS nem metadados das imagens. Basta que apareçam na foto certos eletrodomésticos ou pistas sobre a distribuição do apartamento. Isso pode ser suficiente.
O fato de uma fotografia poder conter detalhes que uma pessoa consiga reconhecer para identificar uma localização não é nenhuma novidade. Mas, pelo menos, era necessário ter um ponto de referência reconhecível ou recorrer às informações que os metadados da foto podem fornecer (por exemplo, quando um celular armazena a data, a hora e o local em que a imagem foi tirada).
O Raven amplia essa ideia, mas agora para o interior dos edifícios. Isso significa que a ferramenta pode determinar a localização com apenas uma selfie tirada no banheiro ou um vídeo gravado dentro do seu apartamento. Segundo o site 404 Media, o Departamento de Polícia de Los Angeles e o Gabinete do Xerife de Miami-Dade (MDSO) compraram acesso à ferramenta.
Como funciona
Conforme relatado pelo 404 Media, o Raven seleciona características marcantes de uma foto, como acessórios, móveis ou a disposição do cômodo, e procura outras fotos que provavelmente mostrem o mesmo imóvel, mesmo que as imagens sejam diferentes ou tenham sido tiradas em outro momento.
O CEO da Graylark, Daniel Heinen, compartilhou algumas demonstrações de como a ferramenta funciona. Em uma delas, a ferramenta associou a foto de uma lavanderia a um anúncio do Airbnb em Charlotte, na Carolina do Norte; em outra, associou a foto de um banheiro a um imóvel para aluguel em Montecito, na Califórnia.
A look at one of our early GeoSpy (now Raven) AI models for indoor video geolocation. We're only beginning to scratch the surface of what's possible. https://t.co/q9fK5FMW8X
— Daniel Heinen (@heinenbros) July 19, 2026
Em outra demonstração, com apenas a foto de um cômodo, foi possível rastrear um endereço em São Francisco. E o 404 Media relata que as fotos do imóvel fornecidas pelo Raven eram idênticas às do Zillow (um portal imobiliário dos EUA), o que sugere que a ferramenta pode se basear, de alguma forma, nos dados desse site.
O que diz a Graylark
Heinen apresentou o recurso como uma forma de combater o tráfico e a exploração de pessoas. Em uma publicação no LinkedIn, afirmou que um cômodo não identificado em uma foto ou vídeo pode se tornar uma “pista de localização” que os investigadores podem verificar e seguir. Ele também declarou que a Graylark está investindo fortemente na geolocalização de interiores de hotéis, imóveis para aluguel de curta temporada, casas e apartamentos nos EUA.
A empresa afirma que, inicialmente, não pretendia criar essa ferramenta. Em uma entrevista ao site Indicator, Heinen comentou que a capacidade oferecida pelo Raven surgiu enquanto a equipe testava uma versão anterior do modelo. Basicamente, ele inseriu uma selfie tirada em um banheiro e a ferramenta localizou o lugar em São Francisco. Em seguida, testou capturas de tela de anúncios do Zillow e, segundo sua versão, acertou a cidade em nove de cada dez casos.
“Dispomos de enormes conjuntos de dados com os quais treinamos os modelos, compostos por imagens geolocalizadas de todas as partes. O normal seria presumir que todas as imagens sejam de ambientes externos. Imagino que algumas delas provavelmente incluam imagens de interiores, seja de pessoas em uma festa ou simplesmente de fotos de comida sobre a bancada. Os modelos devem ter aprendido alguns detalhes relacionados a diferentes localizações”, contou Heinen.
Os limites
Não é como se o Raven pudesse identificar qualquer residência do mundo, mas o 404 Media alerta que algumas buscas provavelmente dependem de modelos desenvolvidos para uma determinada região. O veículo, que teve acesso aos e-mails do Gabinete do Xerife de Miami-Dade (MDSO), descobriu que o departamento tinha acesso a um modelo personalizado, treinado para o condado de Miami-Dade. Os resultados também dependem de a residência aparecer nos anúncios aos quais a ferramenta consegue ter acesso.
Um porta-voz do MDSO declarou ao 404 Media que o uso do GeoSpy havia sido “limitado e, em grande parte, exploratório” e não tinha produzido avanços significativos nem prisões relevantes.
O fato de o Raven precisar de dados de plataformas de aluguel, hotéis ou portais imobiliários pode representar um problema. O Airbnb declarou ao 404 Media que remove os metadados de localização das fotos dos anúncios, permite que os anfitriões exibam apenas uma localização aproximada e adota medidas de segurança contra a coleta automatizada de dados. A empresa afirma não ter nenhuma relação com a Graylark, que seus termos proíbem o scraping (extração massiva de dados) e que está analisando o caso.
O Zillow também informou ao veículo que a extração de dados viola seus termos de uso e que toma medidas legais quando necessário.
O GeoSpy já esteve aberto a praticamente qualquer pessoa. Na época, o 404 Media noticiou que alguns membros do servidor da empresa no Discord pediam ajuda para perseguir mulheres. Um dia depois de os investigadores entrarem em contato com a Graylark, a empresa restringiu o acesso a órgãos governamentais e clientes corporativos.
Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.
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