Produção excedente de eletricidade faz distribuidoras francesas comprarem energia por preço negativo

Compensa mais pagar pra fornecer do que interromper a produção

Energia
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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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O avanço das energias renováveis, especialmente da solar, está fazendo com que, em determinadas horas, a oferta de eletricidade supere amplamente a demanda na Europa. O resultado costuma ser a queda dos preços da eletricidade para abaixo de zero, com frequência cada vez maior. Na França, isso já aconteceu durante 800 horas neste ano, mas outros países, como Suécia, Países Baixos e Espanha, também estão registrando períodos de preços negativos. Por que isso está acontecendo e quais são as consequências para o sistema elétrico?

A Réseau de Transport d’Électricité (RTE) explica em seu site que, no mercado atacadista de eletricidade, os fornecedores compram energia a um preço calculado, neste caso, a cada 15 minutos, de acordo com a oferta e a demanda. Esse preço é conhecido como preço à vista e, em nível europeu, esse sistema segue um modelo de preços marginais. Isso significa que o preço da última usina elétrica utilizada para atender à demanda determina o preço de todas as demais.

Quando a produção supera o consumo e não há flexibilidade suficiente para absorver o excedente, o preço atacadista do megawatt-hora pode cair abaixo de zero. Nesse cenário, alguns produtores podem chegar a aceitar preços negativos, ou seja, concordam em pagar por cada MWh que vendem ao mercado. Um dos motivos mais comuns é que, para algumas usinas elétricas, reduzir ou interromper temporariamente a produção pode sair mais caro do que continuar gerando eletricidade. Isso pode acontecer especialmente com determinadas usinas convencionais, que não conseguem ajustar sua produção com a mesma facilidade que outras tecnologias.

Essa enorme diferença de preços está criando um cenário cada vez mais atraente para investir no armazenamento de energia na França e na Europa em geral. A ideia é simples: reservar os excedentes de energia gerados quando há muita produção e ela é muito barata, para recuperá-los e devolvê-los à rede quando a demanda aumenta e os preços sobem.

A empresa de armazenamento B2B Storio Energy, segundo informações publicadas pela revista especializada PV Magazine, aponta que uma bateria de 1 MW / 2 MWh, analisada em setembro, podia ser carregada a um preço médio de 73 euros/MWh e descarregada quando o preço atingia, em média, 232 euros/MWh, realizando aproximadamente 1,5 ciclo por dia.

O paradoxo francês

A França obtém boa parte de sua eletricidade da energia nuclear; no entanto, em consequência do verão seco deste ano na Europa, sua produção caiu consideravelmente. Mais especificamente, a capacidade nuclear disponível foi reduzida em 3,7 GW, segundo informa a PV Magazine. Enquanto isso, a geração solar aumentou, entrando em ação para compensar essa queda com uma produção que, como vimos, superou amplamente a demanda em muitos momentos.

O paradoxo está no fato de que, apesar desse excedente, os preços da energia no país estão disparados, a ponto de provocar manifestações sociais, como relata o jornal El País: o custo da eletricidade subiu até 16,7% nos últimos 12 meses.

Mas isso não acontece apenas na França. Como indica outra notícia da revista especializada PV Magazine, a Espanha voltou a liderar os preços negativos de eletricidade na Europa no segundo trimestre, devido ao recorde de geração solar registrado neste verão. Diante desse cenário, o comportamento dos mercados refletiu duas situações opostas: por um lado, a elevada produção solar gerou excedentes durante determinadas horas do dia.

Por outro, o aumento da demanda associado às altas temperaturas elevou os preços durante os horários de maior consumo. Tudo isso, segundo a revista, evidenciou as limitações da flexibilidade disponível, não apenas no mercado espanhol, mas também nos mercados europeus.

Por isso, o grande desafio dos próximos anos não será apenas instalar mais fontes de energia renovável: também será necessário investir em baterias, reforçar as redes existentes, melhorar as interconexões e conseguir transferir parte do consumo para os horários em que há eletricidade excedente.

Imagem | Antoine Pouligny (Unsplash)

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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