A China já sabe reabastecer satélites a 36.000 km da Terra; o que preocupa é o que ela pode fazer com essa capacidade

Os postos de combustível espaciais são o futuro dos satélites e da colonização além do nosso planeta

A China já sabe reabastecer satélites a 36.000 km da Terra. O que preocupa é o que ela pode fazer com essa capacidade.
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Fabrício Mainenti

Redator

Quem deseja avançar na corrida espacial precisa, o quanto antes, marcar um item muito concreto em sua lista de conquistas: o reabastecimento em órbita. Isso é necessário por vários motivos, pois é útil para prolongar a vida útil dos satélites, mas também serve para viabilizar viagens espaciais muito mais longas, tanto em tempo quanto em distância.

Por isso, é tão importante o novo grande marco da China: o reabastecimento de um satélite diretamente em órbita terrestre alta (quase 36.000 km). Supostamente, tudo ocorreu em fevereiro passado, mas o país asiático só divulgou a informação agora, graças ao envio de um relatório para revisão por pares à revista Chinese Journal of Deep Space Exploration.

Não é a primeira vez

A China não é conhecida exatamente por sua transparência no que diz respeito à divulgação de seus avanços espaciais. Geralmente, eles só comunicam os feitos quando são bem-sucedidos e, normalmente, algum tempo depois de tê-los alcançado. Por isso, se nos basearmos apenas no que foi comunicado pela China, esta seria a primeira vez que o país asiático consegue realizar um reabastecimento em órbita.

No entanto, sabemos que não é bem assim. Em 2025, o Shijian-21 e o Shijian-25 realizaram o primeiro reabastecimento conhecido em órbita geoestacionária (GEO). Foram observadores internacionais que divulgaram esse marco, ao detectarem a aproximação das duas espaçonaves. Contudo, Pequim não fez nenhum anúncio oficial.

Agora, acontece exatamente o contrário. Ninguém viu o que supostamente ocorreu em fevereiro. No entanto, cientistas chineses afirmam que um satélite-tanque foi utilizado para transferir propelente à temperatura ambiente para o satélite de navegação BeiDou.

Sem combustíveis criogênicos

Na verdade, outros países, como os Estados Unidos, já realizaram manobras de reabastecimento em órbita. O que ninguém conseguiu até agora foi reabastecer utilizando os perigosos combustíveis criogênicos, visto que eles evaporam e apresentam temperaturas e pressões muito difíceis de controlar em condições de microgravidade.

Nesse aspecto, a China segue a mesma tendência. Foi utilizado um combustível químico armazenável, mais fácil de manusear nessas condições. No entanto, isso não torna a tarefa simples.

Desafios superados

Para realizar o reabastecimento em órbita, é fundamental que o satélite-tanque se aproxime de outro que se desloca em alta velocidade, posicione-se a centímetros ou até milímetros de distância e — sem colisões — transfira o combustível, cuidando para evitar vazamentos ou a formação de bolhas.

Outras funções

Neste caso, conseguiu-se reabastecer um satélite. Isso é muito útil, pois permite prolongar sua vida útil enquanto o hardware e o software permanecerem funcionais. Sem o reabastecimento, os satélites precisam ser abandonados quando o combustível acaba e substituídos por novos, o que implica altos custos financeiros e o aumento do lixo espacial. Além disso, esse tipo de manobra pode ter outras duas funções.

Por um lado, o reabastecimento de naves espaciais, e não apenas de satélites; isso permitiria prolongar suas viagens muito além do que é imaginável atualmente. Por outro lado, essa grande capacidade de aproximação pode ser útil para missões antissatélite, nas quais satélites militares se aproximam com alta precisão de satélites inimigos para espioná-los, desativá-los ou destruí-los, conforme necessário.

Por enquanto, parece que a China apenas lançou as bases para os postos de combustível espaciais do futuro, mas também pode estar testando suas próximas estratégias militares no espaço. Não sabemos ao certo — tudo não passa de especulação —, mas muitos países já estão investindo nessa área. Seria estranho se o país asiático ficasse para trás.

Imagem de capa | 中国新闻社

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