Os cientistas já acreditaram que as aves migravam para a Lua — o que mudou tudo foi encontrar na Alemanha uma cegonha com uma flecha africana

Ao longo dos séculos, surgiram teorias, cada uma mais maluca que a anterior, para explicar os movimentos migratórios das aves

Aves em migração
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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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Poucas imagens são tão características da primavera na Europa quanto o retorno das andorinhas e, sobretudo, das cegonhas que, após um longo inverno, voltam para casa para fazer seus ninhos. Imagine a surpresa se, certo dia, uma dessas cegonhas aparecesse na sua cidade com uma flecha de 80 centímetros atravessada no pescoço.

Isso aconteceu em 1822, em uma cidade alemã. E, longe de ser apenas uma anedota, o episódio se tornou um fato fundamental para desvendar o mistério de por que as aves desapareciam no inverno.

Hoje aprendemos isso na escola, mas o fenômeno continuou sendo um enigma até meados do século 19. Esses processos migratórios, nos quais até as menores aves percorrem milhares de quilômetros sem parar, não eram compreendidos, o que levava os pensadores da época a formular hipóteses e teorias que, na falta de provas, eram simplesmente aceitas.

Aves alienígenas

No século 17, Charles Morton, acadêmico de Harvard, sugeriu que o motivo pelo qual algumas aves desapareciam no inverno era que elas migravam para a Lua. Provavelmente você ergueu uma sobrancelha pensando algo como “impossível, eles não podiam ser tão ingênuos”, mas é preciso se colocar no lugar de alguém que não tinha como verificar o fenômeno e que, afinal, estava tentando encontrar uma resposta para um mistério real.

Porque o que se sabia era que as aves desapareciam durante meses, mas não para onde iam. E, como a Lua podia ser vista de Massachusetts, a resposta parecia clara. Mas não pense que essa era a única teoria maluca da época. Aristóteles, já no século 4 a.C., teorizou sobre a possibilidade de as aves se transformarem em outras espécies, e chegou-se até a cogitar que elas hibernassem debaixo d’água. Morton rejeitou essa ideia por considerá-la fantasiosa demais (diferentemente da sua, é claro).

A flechada

Morton chegou a calcular que a viagem até a Lua levava um mês na ida e outro na volta, com as aves dormindo durante boa parte do percurso e sobrevivendo graças à gordura corporal. Na verdade, na falta de teorias melhores, não era uma ideia tão ruim (estamos falando do século 17 e dos recursos disponíveis naquela época). No entanto, aos poucos, foi se consolidando a ideia de que aquelas aves europeias iam para outros lugares durante o inverno. E a prova definitiva veio de uma cegonha.

Pfeilstorch

Certo dia, em 1822, no norte da Alemanha, alguém atirou em uma cegonha, que caiu abatida e revelou uma surpresa enorme aos presentes: havia uma flecha de 80 centímetros atravessada em seu pescoço. A questão já não era como ela conseguia voar com um ferimento daqueles, mas de onde tinha vindo a flecha.

O corpo da cegonha foi levado à Universidade de Rostock, onde os pesquisadores examinaram o projétil e concluíram que se tratava de uma flecha pertencente a algum grupo da África Central. Como era impossível, ou extremamente improvável, que alguém tivesse lançado algo assim em território europeu, a resposta se tornou evidente: aquela cegonha havia percorrido mais de 3.000 quilômetros desde o local da África onde passara o inverno até ser abatida na Alemanha.

Batizada de Pfeilstorch, a ave foi empalhada e está preservada em perfeitas condições na Coleção Zoológica da Universidade de Rostock, graças à sua inegável importância para a ciência e a ornitologia: ela confirmou as suspeitas de que as aves migratórias não se transformavam em outras criaturas, não passavam quatro meses dormindo debaixo d’água nem viajavam para a Lua. Elas migravam para lugares mais quentes durante o inverno europeu.

Depois do caso da Pfeilstorch (que significa “cegonha flechada” ou “cegonha atravessada por uma flecha”), outros exemplares com as mesmas características foram encontrados na Europa: aves com flechas cravadas em alguma parte do corpo. Isso não é tão incomum em aves de grande porte, que demonstram grande resistência a ferimentos que não comprometam o voo ou suas funções básicas. Quando são feridas, se o ferimento não for grave, a lesão se estabiliza e a ave pode continuar vivendo normalmente.

Com a introdução de anilhas nas patas das aves pelo dinamarquês H. C. Mortensen, em 1899, os pesquisadores sistematizaram o estudo desses animais para comprovar que aqueles que voavam para longe da Europa antes do inverno, desapareciam e depois retornavam, eram os mesmos indivíduos.

Assim, podemos dizer que aquela flecha lançada na África e encontrada na Alemanha foi o primeiro sistema de rastreamento de aves: um acaso que permitiu obter os primeiros dados conclusivos sobre os hábitos migratórios desses animais.

Imagens | David Billington (Unsplash)

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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