Estudo revela que os “porcos do inferno” que habitaram a Espanha há 30 milhões de anos não eram o que se pensava

Os restos encontrados em um sítio paleontológico não se encaixam em nenhuma das espécies conhecidas desses gigantes pré-históricos

Entelodon
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Victor Bianchin

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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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Se hoje nos deparássemos com um entelodonte, o apelido de “porco do inferno” pareceria bastante apropriado. Afinal, ter um crânio enorme, uma mandíbula repleta de dentes formidáveis e um tamanho imponente fazia dele o animal perfeito para dominar a paisagem do Oligoceno de 30 milhões de anos atrás. Entre os lugares que habitaram, a península Ibérica não foi exceção, mas uma nova e exaustiva análise dos fósseis encontrados no território acaba de reescrever o que acreditávamos saber sobre eles.

O estudo publicado na Geologica Acta colocou sob análise os restos encontrados de entelodontes no sítio paleontológico de Rocallaura, na bacia do Ebro, na Espanha. O resultado foi claro: a identidade desses monstros pré-históricos ibéricos é muito mais enigmática do que indicava a literatura clássica.

Durante décadas, a paleontologia espanhola considerou certo que os restos encontrados em Rocallaura pertenciam à espécie Entelodon magnus. Essa atribuição remonta a textos históricos, como os publicados em 1982, nos quais já se mencionava o material que o paleontólogo Villalta havia classificado inicialmente como Elotherium magnum e posteriormente Entelodon magnum, cuja grafia atual é magnus.

No entanto, essa primeira avaliação detalhada de restos de entelodontes na península Ibérica muda tudo. Após analisar minuciosamente o material, constatou-se que os restos pertencem indubitavelmente ao gênero Entelodon, mas foi descartada a possibilidade de que se encaixem em E. magnus ou em E. deguilhemi, outra espécie com abundante registro fóssil na França. Por isso, atualmente, o material ibérico não pode ser atribuído com segurança a nenhuma espécie específica, deixando aberta a porta para novas incógnitas evolutivas.

Gigantes e magníficos

Para entender a aura assustadora que os entelodontes transmitem, basta observar seu crânio, no qual podem ser observadas expansões do osso jugal e tubérculos pronunciados na mandíbula inferior.

E, longe de serem um mero adorno estético para intimidar, essas enormes protuberâncias ósseas cumpriam uma função biomecânica vital, servindo como pontos de ancoragem para uma musculatura mandibular gigantesca. Isso proporcionava aos animais uma estabilidade imensa ao abrir a boca em ângulos extremos e uma força de mordida capaz de triturar objetos de extrema dureza.

Ter esses elementos corporais faz com que, logicamente, qualquer um possa temer sua mera presença, já que todos vamos imaginar que era um grande predador da época. Mas a ciência, após analisar seus dentes, nos conta que sua capacidade de desgaste era quase idêntica à do javali atual e ligeiramente diferente da do urso-pardo.

Ou seja, os “porcos do inferno” europeus eram, na realidade, onívoros oportunistas, alimentando-se de raízes, tubérculos, carniça e pequenos animais, mas não eram caçadores especializados de grandes presas.

Curiosamente, seus parentes norte-americanos podem ter sido mais agressivos, já que as pesquisas indicam que seus dentes apresentavam sinais de desgaste semelhantes aos de um leão ou de uma hiena moderna.

O conceito de “porco” não é filogeneticamente preciso, pois, embora morfologicamente nos façam lembrar esses animais, as análises evolutivas modernas os afastam da ideia de um javali gigante. Os estudos de referência indicam que os entelodontes têm um parentesco muito mais próximo com os hipopótamos e as baleias.

A boa notícia é que o trabalho em Rocallaura é apenas o começo — a equipe já está analisando novos restos provenientes de sítios paleontológicos próximos, como o de El Talladell. E isso é positivo porque é muito provável que os “porcos do inferno” que habitaram a península há 30 milhões de anos ainda tenham muitas surpresas guardadas sob a terra.

Imagens | Wikipedia

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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