Sam Altman já havia alertado que a inteligência artificial estava sendo uma das melhores desculpas das grandes empresas de tecnologia para justificar as ondas de demissões que vêm acontecendo em 2026.
Por outro lado, durante uma entrevista à Fox News, Jeff Bezos garantiu não acreditar que a IA seja a grande responsável por esses cortes. Ainda assim, ele reconheceu que as demissões estão ligadas a um futuro no qual a tecnologia assume papel prioritário para a Amazon, justificando as dispensas pelo contexto de urgência da empresa em voltar a crescer.
Compras direto do sofá
O fundador da companhia justificou a expansão desenfreada da Amazon durante a pandemia pela explosão na demanda do comércio eletrônico provocada pelas restrições de mobilidade. "As pessoas ficavam em casa e faziam pedidos", relatou Bezos, explicando que, por isso, "realmente aumentamos nosso quadro de funcionários". Ele lembrou ainda que aquele foi "um período incrivelmente estressante para nós".
De acordo com Bezos, a varejista saiu daquela fase com excesso de pessoal — e os dados comprovam sua tese. Segundo os relatórios oficiais enviados à Comissão de Valores Mobiliários dos EUA (SEC), a empresa contava com 798.000 funcionários no final de 2019. Apenas dois anos depois, já eram 1,6 milhão de colaboradores: mais do que o dobro em apenas 24 meses.
30.000 demissões em três meses
Assim que o apetite pelas compras online se estabilizou, vieram os cortes. Em outubro de 2025, a Amazon anunciou 14.000 demissões e, em janeiro de 2026, confirmou outros 16.000 desligamentos, totalizando 30.000 postos fechados em um intervalo de três meses. A executiva Beth Galetti declarou que o objetivo era "fortalecer a organização reduzindo níveis hierárquicos, ampliando a autonomia e eliminando burocracias".
No entanto, há uma contradição evidente no discurso de Bezos: os cortes não atingiram a equipe encarregada de suprir a demanda das compras virtuais — o que seria lógico caso o volume de pedidos tivesse despencado. Conforme os registros entregues à SEC, no encerramento de 2025 o quadro seguia em 1,576 milhão de funcionários, subindo para 1,595 milhão no primeiro trimestre de 2026. Como apurou a Reuters, daquelas 30.000 demissões, menos de 1.000 atingiram funcionários de escritório do setor de lojas.
A IA revela suas verdadeiras intenções
Em junho de 2025, Andy Jassy avisou a equipe que a IA transformaria a rotina corporativa. "Precisaremos de menos pessoas para realizar algumas das tarefas feitas hoje", pontuou o CEO em um comunicado interno. Meses depois, o principal executivo da empresa reforçou aos investidores que a intenção era enxugar camadas gerenciais para dar agilidade à organização no futuro.
Na prática, como destacou a Reuters, grande parte dos 30.000 desligados atuava em setores como Alexa, dispositivos, Prime Video e publicidade. Quase ninguém foi demitido em armazéns, centros de distribuição ou operações de entrega — o que desmonta a tese de um simples "retorno à normalidade" pós-2020 citada por Bezos. Karan Girotra, professor da Universidade Cornell, disse à Euronews que "talvez tudo já estivesse inflado desde o início". E concluiu: "você reduz a equipe, culpa a IA e cria uma narrativa de valor para o mercado".
O dinheiro apenas muda de endereço
Se o número total de empregados da Amazon pouco mudou desde 2021, mas dezenas de milhares foram demitidos nesse intervalo, para onde foram parar essas vagas? O mistério é fácil de solucionar: foram para a IA. Em vez de simplesmente cortar pessoal, a gigante tecnológica deslocou recursos de áreas menos rentáveis diretamente para as divisões da AWS dedicadas ao desenvolvimento de modelos de inteligência artificial.
Pelos balanços da empresa, o segundo trimestre registrou faturamento de US$ 200,6 bilhões — crescimento de 20% frente ao período anterior —, com a Amazon Web Services (AWS) avançando 37%. Os investimentos de capital para 2026 foram ampliados para cerca de US$ 220 bilhões, com foco expressivo em IA. Tudo isso mantendo quase o mesmo contingente de 2021 que Bezos classificou como superdimensionado. No fim das contas, as demissões não representavam uma crise no comércio eletrônico, mas sim uma estratégia calculada de mudar as apostas de cesta.
Matéria traduzida de Xataka*
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