Embora o nome talvez não importe tanto agora, houve um momento em que "Sora" era sinônimo de vanguarda na geração de vídeos por IA. O modelo da OpenAI liderou a área de geração de vídeos por inteligência artificial e chamou muita atenção com os exemplos divulgados, que se distanciavam bastante daquela imagem inicial de Will Smith comendo macarrão.
No entanto, em março deste ano, a empresa descontinuou o Sora para focar em outras frentes. Porém, agora que parece haver demanda e dinheiro envolvido, a OpenAI está cogitando reviver o Sora e, segundo o The Information, isso deve ocorrer na forma de uma ferramenta para a produção de filmes.
Em resumo
O motivo do encerramento do Sora na época foi a necessidade de liberar poder computacional. Foi um momento em que a disputa com a Anthropic e com os modelos chineses se intensificou, levando a empresa de Sam Altman a decidir que era melhor concentrar esforços.
A OpenAI estava tentando fazer de tudo um pouco, e encerrar o Sora permitia economizar recursos para investir em menos produtos, porém mais potentes. Pelo caminho, ficou um acordo de 1 bilhão de dólares com a Disney — talvez o aspecto mais comentado do encerramento (o que diz muito por si só).
Desde então, contudo, os aplicativos de criação de vídeo com IA — liderados pelos chineses — tiveram uma explosão de popularidade. Já existem produções feitas 100% com essa tecnologia, e a OpenAI não quer ficar de fora dessa tendência.
Segundo o The Information, a empresa planeja reviver o Sora, mas não como um produto voltado para o usuário final (como era antes), e sim como uma ferramenta de software e serviços para a indústria cinematográfica.
Possível cliente
O The Information não revelou muitos detalhes adicionais, embora, por precedentes, fique claro que o veículo possui fontes confiáveis dentro da indústria. O que se sabe é que a OpenAI está negociando com uma startup de vídeo fundada por Bill Peebles (até pouco tempo atrás, o responsável pela pesquisa do Sora) e Jeffrey Katzenberg — ex-presidente da Disney até sua demissão em 1994 e fundador da DreamWorks.
Esta startup, envolta em uma aura de mistério, tem como objetivo treinar ferramentas próprias para a indústria cinematográfica e, segundo o The Information, o acordo ainda não foi fechado, mas a ideia é que a OpenAI receba uma participação no que resultar dessa iniciativa.
"Amplificar a imaginação"
Faz sentido que a empresa de Katzenberg utilize o Sora como base tecnológica, considerando a trajetória de Peebles; no entanto, isso não é uma anomalia, e teremos de nos acostumar — gostemos ou não — à presença de "coisas" criadas com IA no cinema e na televisão.
A abertura da série Stuart Fails to Save the Universe, da HBO, deixa isso bem evidente — algo que o trailer já indicava —, e cada vez mais nomes de peso da indústria veem com bons olhos o uso de IA.
Quando o CEO da BBC viu um episódio de 'Doctor Who' feito por um fã e gerado 100% com IA, comentou que a ferramenta já está no nível de uma produção de Hollywood. Há alguns dias, noticiamos que Ben Affleck — dono de uma empresa que treina modelos de IA para o cinema e que foi comprada pela Netflix por 600 milhões de dólares (cerca de R$ 3 bilhões) — utilizou essa tecnologia "em muitas coisas" para seu novo filme.
A Lionsgate foi uma das primeiras a embarcar nessa tendência, comentando em 2024 que esperava economizar "milhões e milhões de dólares" em suas produções graças à Runway — algo que seu vice-presidente reforçou novamente este ano.
Já a responsável internacional da Amazon Prime Video comentou que a IA é uma ferramenta que "amplifica a imaginação". Naturalmente, a Netflix compartilha dessa visão; inclusive, já foi dito que O Eternauta foi produzido dez vezes mais rápido com essas ferramentas do que com efeitos convencionais.
Rentabilizar catálogos ociosos
Para os executivos, essas ferramentas também representam uma oportunidade de gerar mais receita. Os grandes estúdios possuem uma enorme quantidade de propriedades intelectuais que nem sempre estão sendo utilizadas, mas que podem ser vendidas para empresas de IA treinarem seus modelos.
Pense, por exemplo, no Robin Hood da Disney: faz muito tempo que não o vemos em lugar algum e a Disney pode não ter interesse em utilizá-lo, mas ele continua sendo uma propriedade intelectual (IP) da empresa. Se puder vendê-lo para treinar o Sora, será dinheiro ganho simplesmente por ceder algo que não seria usado.
O acordo firmado pela Lionsgate com a Runway em 2024 seguia essa lógica, com um contrato para alimentar o modelo com 20.000 propriedades da companhia. No fim das contas, é uma forma de rentabilizar um catálogo inativo sem precisar cedê-lo a terceiros.
Na verdade, tudo gira em torno de dinheiro — algo que já havia sido comentado quando a Disney enviou uma notificação extrajudicial ao Google exigindo que suas obras deixassem de ser usadas para treinar os modelos da gigante de tecnologia... logo antes de assinar um acordo para exatamente a mesma finalidade com a OpenAI.
Contra
Mas parece que, de um lado, existe a visão dos executivos e, de... ...outro, a perspectiva de quem cria essa arte. Hayao Miyazaki, estrela da animação mundial e fundador do Studio Ghibli, comentou que a animação por IA era "um insulto à própria vida".
Guillermo del Toro também reiterou diversas vezes sua opinião sobre essa tecnologia e, de fato, recentemente conversamos com dubladores, desenhistas e roteiristas que não hesitaram em classificá-la como algo "terrível".
É evidente que existe uma enorme divisão na indústria cinematográfica quanto ao uso de IA em diferentes aspectos (efeitos, roteiros, voz), sendo esse um dos temas centrais da recente greve em Hollywood. Mas, no fim das contas, é como tudo na vida: de um lado, estão os executivos que comandam os estúdios e, de outro, aqueles responsáveis pela criação artística.
Por fim, independentemente da questão da substituição de postos de trabalho causada por essa tecnologia, há um debate paralelo muito difícil de resolver: quais licenças foram utilizadas para treinar um modelo que, como já se comprovou, absorveu tudo o que era possível extrair da internet.
Matéria traduzida e adaptada do Xataka Espanha.
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