Otan prepara plano caso Rússia decida cruzar a fronteira de algum de seus membros do leste

Estratégia chega em um momento de inquietação europeia com as operações de sabotagem atribuídas a Moscou

Ofensiva da OTAN
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Victor Bianchin

Redator
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Victor Bianchin é jornalista.

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A Otan vem se preparando há anos para uma possibilidade que até pouco tempo atrás parecia impensável: que a Rússia decida cruzar a fronteira de algum de seus membros do leste. Agora, seu comandante militar revelou as linhas gerais de um plano concebido para transformar essa invasão em um pesadelo logístico. A ideia consiste em deter o primeiro ataque, bloquear o avanço das tropas e destruir progressivamente tudo o que permite a um exército continuar combatendo. Uma estratégia que pretende transformar cada quilômetro de uma ofensiva russa em um problema cada vez mais difícil e custoso de resolver.

O general estadunidense Alexus Grynkewich, comandante supremo aliado na Europa, apresentou no Fórum de Segurança de Varsóvia o que chama de “teoria da vitória” da Aliança. Sua proposta se resume a três verbos: bloquear, conter e desarticular (block, blunt and break).

O objetivo é impedir que uma ofensiva consiga suas primeiras conquistas territoriais e, se o atacante insistir, desmantelar a estrutura militar que sustenta a operação até tornar inviável sua continuidade.

A primeira fase consistiria em erguer uma barreira capaz de deter as forças invasoras antes que consolidassem suas posições. Para isso, a Otan prevê uma extensa zona de defesa apoiada em drones, robôs terrestres, sensores e sistemas autônomos que permitirão identificar e atacar as unidades inimigas, reduzindo a exposição dos soldados aliados.

A experiência da Ucrânia demonstrou que esses sistemas relativamente baratos podem transformar estradas, corredores logísticos e concentrações de veículos em áreas extremamente perigosas para um exército convencional.

Segunda e terceira fases

Se a Rússia continuasse avançando ou mobilizasse suas reservas, começaria a fase destinada a privar suas forças de capacidade ofensiva. A Otan empregaria aviação, artilharia e mísseis de longo alcance para atingir as unidades que se aproximassem do campo de batalha, interromper a chegada de reforços e reduzir a capacidade das defesas aéreas inimigas.

Entre os cenários contemplados estão ataques contra instalações militares e postos de comando em Kaliningrado, Belarus e nas proximidades de São Petersburgo, com o objetivo de dificultar a coordenação das operações russas e facilitar a resposta terrestre dos aliados.

A terceira fase mira diretamente os elementos que mantêm uma invasão em operação: combustível, munições, comunicações, centros de comando e cadeias de abastecimento. Grynkewich explicou que as formações atacantes ficariam sem suprimentos e que seus comandantes perderiam progressivamente a capacidade de dirigi-las.

Tanque

A lógica é que uma coluna de veículos blindados pode conservar boa parte de seus veículos e, ainda assim, deixar de representar uma força de combate eficaz quando tudo aquilo de que precisa para se deslocar, disparar e receber ordens é interrompido.

A guerra dos drones baratos

Uma das mudanças fundamentais em relação aos planos tradicionais da Otan é a aposta no que Grynkewich chama de “massa acessível”: grandes quantidades de sistemas autônomos relativamente baratos que complementam caças, mísseis e plataformas de alta tecnologia.

A proposta incorpora as lições da Ucrânia, onde os drones multiplicaram a vigilância do campo de batalha e obrigaram o inimigo a modificar profundamente os deslocamentos de suas unidades terrestres. Para conectar todos esses recursos, a Aliança também está desenvolvendo uma infraestrutura digital que permitiria compartilhar informações confidenciais sobre alvos entre suas forças e acelerar as decisões militares.

Enquanto Grynkewich apresentava o plano em Varsóvia, mais de 20 mil militares participavam do exercício Steadfast Duel, uma simulação de dez dias organizada para ensaiar a resposta a uma invasão vinda do leste. O cenário previa aproximadamente um milhão de soldados aliados enfrentando uma força inimiga de dimensões semelhantes, embora esses números correspondessem às hipóteses do exercício, e não a tropas efetivamente mobilizadas.

A manobra permitiu testar a coordenação entre os comandos, a transmissão digital de informações e a capacidade de executar ataques contra centros de comando inimigos em uma guerra de enormes proporções.

O limite que a Otan quer respeitar

O comandante insistiu que a estratégia busca deter uma agressão sem conquistar território russo nem perseguir a derrubada do governo de Moscou. Em teoria, essa distinção responde ao perigo de que uma guerra convencional entre potências nucleares acabe escalando até consequências muito mais graves.

Em outras palavras, a Aliança pretende destruir a capacidade militar utilizada para atacar seus membros e obrigar o adversário a parar, mantendo seus objetivos de guerra suficientemente delimitados para reduzir o risco de uma escalada descontrolada.

Sem dúvida, o plano chega em um momento de inquietação europeia com as operações de sabotagem atribuídas à Rússia, as incursões de drones e as dúvidas sobre a continuidade do compromisso estadunidense com a defesa do continente. A isso se somam as dificuldades para repor munições, especialmente os interceptadores Patriot PAC-3 e os mísseis ATACMS, enquanto Washington destina parte de seus arsenais ao Oriente Médio.

Grynkewich apresentou uma estratégia que pretende convencer Moscou de que atacar a Otan seria inútil, embora sua eficácia dependa de os aliados disporem do dinheiro, das armas, da preparação e da vontade política necessários para executá-la. 

Imagem | EAS: descarregamento em Parsberg, NARA

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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