Em 1945, a bomba nuclear se tornou realidade: logo em seguida, começamos a imaginar os projetos atômicos mais malucos possíveis

De um carro com motor nuclear a um avião, passando pela exploração do espaço com energia atômica

Avião movido a energia atômica
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Victor Bianchin

Redator
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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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Nos anos 1950, parecia que a humanidade estava às portas de uma nova revolução industrial. A energia atômica deixaria para trás o carvão, o petróleo e o vapor que herdamos da primeira revolução. Nem tudo eram flores, é claro, mas a ingenuidade da época e o pouco que se sabia sobre os perigos da radiação deram origem a projetos tão ambiciosos quanto disparatados. Nenhum deles passou da fase de protótipo.

Hoje, a energia nuclear produz eletricidade no mundo inteiro e movimenta submarinos, porta-aviões e quebra-gelos. Naquela época, porém, chegou-se a pensar que o átomo poderia mover absolutamente tudo.

O princípio é simples. Quando o núcleo de um átomo pesado, como o urânio ou o plutônio, se divide, libera uma enorme quantidade de energia na forma de radiação e calor. Se essa reação em cadeia sair do controle, temos uma bomba. Se for controlada, temos um reator que aquece a água até transformá-la em vapor e movimenta uma turbina, como em qualquer usina nuclear. Com essa ideia em mente, engenheiros de automóveis, aviões e naves espaciais começaram a sonhar.

Em 1958, a Ford apresentou o Nucleon, um carro-conceito movido por um pequeno reator instalado entre as rodas traseiras. O reator produziria vapor para movimentar turbinas, e a cabine ficava bem à frente para manter os ocupantes afastados do núcleo. A marca sonhava com postos de serviço onde o núcleo seria trocado a cada 8.000 quilômetros, como quem troca um filtro. O Nucleon nunca passou de uma maquete em escala 3/8, que hoje está preservada no Museu Henry Ford, em Dearborn. Ninguém sabia como reduzir um reator a esse tamanho nem como blindá-lo sem carregar o carro com toneladas de chumbo.

Ideias atômicas malucas

A segunda ideia foi bem mais longe: instalar um reator em um bombardeiro para que ele pudesse passar dias no ar e atacar um inimigo localizado do outro lado do mundo. Esse foi o programa de propulsão nuclear para aeronaves da Força Aérea dos Estados Unidos, mas os problemas se mostraram rapidamente.

O primeiro era proteger a tripulação. O segundo, transformar o calor do reator em propulsão. Dois caminhos foram estudados: o mais simples fazia o ar passar diretamente pelo núcleo antes de ser expelido pelos bocais de exaustão, ao custo de deixar um rastro radioativo. O mais limpo usava um trocador de calor que mantinha a radiação dentro do reator, mas era muito mais complexo e pesado.

Carro

Os testes em voo foram realizados com um avião da Convair, não da Boeing: o NB-36H, um bombardeiro B-36 Peacemaker que havia sido danificado por um tornado. A Convair reconstruiu o nariz da aeronave como uma cápsula blindada com chumbo e borracha, pesando cerca de 12 toneladas. Entre setembro de 1955 e março de 1957, o avião completou 47 voos e passou 215 horas no ar, 89 delas com o reator ligado. Mas o reator nunca movimentou o avião: estava a bordo para verificar se a blindagem funcionava. O programa foi cancelado em março de 1961. Os mísseis balísticos intercontinentais já tornavam desnecessário um bombardeiro capaz de voar durante dias.

A ideia, porém, não estava tão morta quanto parecia. Em 21 de outubro de 2025, a Rússia testou o Burevestnik, um míssil de cruzeiro com um pequeno reator nuclear integrado ao motor. Segundo o Estado-Maior russo, ele percorreu 14 mil quilômetros em cerca de 15 horas, um dado que não pôde ser verificado de forma independente. O projeto já havia custado vidas: em 2019, uma explosão durante a recuperação de um desses mísseis no mar Branco matou cinco técnicos.

Rumo a Marte, a bordo de uma bomba atômica

A terceira ideia é a mais surpreendente de todas. O Projeto Orion pretendia construir uma nave capaz de levar uma tripulação a Marte, ou ainda mais longe, impulsionada por uma sucessão de explosões atômicas. A propulsão nuclear por pulsos havia sido proposta pelo matemático Stanislaw Ulam, em Los Alamos, o laboratório onde foram projetadas as bombas de Hiroshima e Nagasaki. O projeto começou em 1958, na empresa General Atomic, em San Diego. Era liderado por Ted Taylor, antigo projetista de bombas de Los Alamos, e contou também com a participação do físico Freeman Dyson. Foi financiado inicialmente pela ARPA e, depois, pela Força Aérea e pela NASA. Seu lema era “Marte em 1965, Saturno em 1970”.

O projeto funcionava assim: sob a nave, havia uma grande placa de propulsão, ligada à cápsula por amortecedores. As bombas eram lançadas por uma abertura no centro da placa e explodiam a certa distância, de modo que cada explosão impulsionava a nave para a frente. Em novembro de 1959, um modelo de um metro, batizado de “Hot Rod”, voou com explosivos convencionais e demonstrou que o voo baseado em impulsos podia ser estável. Para lançar as cargas em intervalos regulares, a equipe chegou a consultar a Coca-Cola sobre o maquinário usado em suas fábricas de engarrafamento. As versões mais ambiciosas calculadas por Dyson, já voltadas para viagens interestelares, alcançavam cerca de 3% da velocidade da luz.

Silo

O Tratado de Proibição Parcial de Ensaios Nucleares, de 1963, que proibiu explosões atômicas na atmosfera e no espaço, acabou de vez com o projeto. Somava-se a isso a preocupação com a precipitação radioativa provocada por cada lançamento. Em janeiro de 1965, como o próprio Dyson contou em um artigo intitulado “Morte de um projeto”, o Orion desapareceu sem que quase ninguém percebesse. A BBC revisitou sua história no documentário “To Mars by A-Bomb” (2003), com entrevistas de seus projetistas.

Mais de sessenta anos depois, a propulsão nuclear espacial continua sem decolar. A DARPA e a NASA pretendiam testar em órbita um motor de propulsão nuclear térmica, no âmbito do projeto DRACO, mas a DARPA o cancelou em 2025, ao concluir que os custos já não compensavam. O que continua em andamento é o plano da NASA de instalar na Lua, por volta de 2030, um reator de fissão de 100 quilowatts, destinado a fornecer eletricidade durante a longa noite lunar, e não a impulsionar qualquer veículo.

Ninguém mais pensa em instalar um reator em um carro. A ideia do avião atômico reapareceu transformada em míssil. E a corrida espacial foi vencida pelos foguetes químicos de Wernher von Braun.

Imagem: Wikimedia Commons, Danny Greenberg (Unsplash)

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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