A floresta alemã onde todas as árvores parecem ter enlouquecido

Quase cem anos após o plantio, Krzywy Las continua preservando as marcas de um episódio cuja origem é desconhecida

Krzywy Las
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Victor Bianchin

Redator
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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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A história começa por volta de 1930, quando alguém plantou um pequeno bosque de pinheiros em uma localidade que, na época, pertencia à Alemanha. Depois vieram Hitler, a Segunda Guerra Mundial, a destruição da região e novas fronteiras que transformaram aquele território em parte da Polônia. Quase um século depois, as árvores continuam lá, guardando um segredo que sobreviveu a tudo isso: seus troncos fazem uma curva de quase 90 graus logo acima do solo, avançam horizontalmente por vários metros e depois retomam o crescimento vertical.

Ninguém conseguiu demonstrar como diabos isso é possível.

O cenário dessa história é Krzywy Las, literalmente a Floresta Torcida, situada perto de Nowe Czarnowo, nas proximidades da cidade polonesa de Gryfino e da fronteira alemã. Quando aqueles pinheiros foram plantados, no início da década de 1930, a localidade se chamava Greifenhagen e fazia parte da Alemanha.

O território pertencia à província prussiana da Pomerânia, em uma Europa cujas fronteiras mudariam radicalmente depois de 1945. Hoje, aquele pequeno bosque constitui um monumento natural protegido e uma das paisagens mais insólitas do noroeste da Polônia.

A peculiaridade de Krzywy Las começa a poucos centímetros do chão. Os troncos se inclinam bruscamente, descrevem uma curva semelhante à letra J e se estendem lateralmente por uma distância entre um e três metros antes de se endireitarem e continuarem crescendo para cima. Os exemplares mais altos chegam a aproximadamente 15 metros e apresentam um aspecto saudável.

Krzywy Las 1

O que realmente causa perplexidade é a uniformidade do fenômeno: as curvas apontam para o norte e começam aproximadamente na mesma altura, enquanto outros pinheiros das redondezas crescem com absoluta normalidade. Durante décadas, repetiu-se que existem cerca de 400 árvores deformadas, um número cuja exatidão é discutível e que algumas fontes locais reduzem. Seja como for, o que está comprovado é a ocorrência desse fenômeno insólito.

O que os cientistas sabem

Gary Coleman, professor de ciências vegetais da Universidade de Maryland, explicou ao The Washington Post que o formato dos troncos é compatível com uma resposta natural das árvores à gravidade. As plantas possuem mecanismos celulares que lhes permitem detectar sua orientação e modificar o crescimento para recuperar a verticalidade.

Entre esses mecanismos estão pequenos grânulos de amido que se deslocam dentro de determinadas células quando a posição do caule muda. Coleman considera possível que os pinheiros tenham ficado tombados quando ainda eram muito jovens e, posteriormente, começado a crescer para cima. Esse mecanismo explica como eles podem ter desenvolvido curvas tão acentuadas, mas deixa em aberto a pergunta fundamental: o que os obrigou a assumir aquela posição inicialmente?

Krzywy Las 2

Uma das hipóteses mais difundidas aponta para antigos agricultores ou trabalhadores florestais da região. Segundo essa explicação, os pinheiros teriam sido plantados deliberadamente para produzir madeira curvada, destinada à fabricação de móveis, embarcações ou outras estruturas que exigiam peças com formatos específicos.

Essa hipótese sugere que os responsáveis teriam prendido as árvores jovens perto do solo durante seu crescimento, obrigando-as a desenvolver uma curvatura que ficaria incorporada permanentemente ao tronco. A técnica de moldar árvores vivas tem precedentes documentados e explicaria a regularidade do conjunto. No entanto, nenhum registro histórico conhecido comprova que ela tenha sido empregada em Krzywy Las, e não foram identificadas as pessoas que supostamente realizaram esse trabalho.

A guerra levou consigo as respostas

A história europeia oferece uma possível explicação para o fato de nunca se ter conhecido a finalidade daquele plantio. Em 1939, quando a Alemanha invadiu a Polônia e começou a Segunda Guerra Mundial, Greifenhagen ainda era território alemão. Nos últimos meses do conflito, em 1945, a região sofreu os efeitos dos combates e da ofensiva soviética.

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Após a derrota nazista, a localidade ficou sob administração polonesa e sua população alemã fugiu ou foi expulsa, enquanto novos habitantes poloneses se estabeleciam na região. Se existia um projeto florestal para aproveitar aqueles troncos, ele pode ter sido interrompido pela guerra. O desaparecimento da comunidade que havia vivido ali durante gerações também pode ter apagado a memória de quem plantou as árvores e com qual intenção.

A relação com a guerra alimentou uma explicação ainda mais surpreendente: a de que veículos militares teriam esmagado os pinheiros quando ainda eram pequenos, obrigando-os a crescer horizontalmente antes de recuperar a posição vertical. Também foram propostas hipóteses envolvendo fortes nevascas, tempestades intensas e outras alterações ambientais capazes de deformar árvores jovens.

William Remphrey, pesquisador aposentado da Universidade de Manitoba, explicou ao The New York Times que uma mutação genética é pouco convincente, pois as deformações se concentram na base dos troncos e apresentam curvas relativamente suaves. As hipóteses naturais e militares têm dificuldade para explicar a orientação e a regularidade do conjunto, embora essas características também não constituam uma prova definitiva de intervenção humana.

Um segredo que sobreviveu a Hitler

O que parece claro é que, quase cem anos após seu plantio, Krzywy Las continua preservando as marcas de um episódio cuja origem é desconhecida. Os cientistas conseguem explicar como um pinheiro pode voltar a crescer na vertical depois de ter se desenvolvido tombado, e os historiadores conhecem as transformações políticas e demográficas pelas quais a região passou.

Falta a peça que conecta essas duas histórias: um documento, um depoimento ou alguma evidência que permita reconstruir o que realmente aconteceu naquele plantio realizado na Alemanha do período entre guerras. Enquanto essa prova não aparecer, as árvores continuarão crescendo sobre suas curvas extraordinárias, transformadas em testemunhas de um passado que atravessou uma guerra mundial, mudou de país e perdeu aqueles que talvez conhecessem sua verdadeira explicação.

Imagem | Kengi, Michał Słupczewski, Artur Strzelczyk, Adam Lederer

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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