Nas fotos aéreas de julho de 2025, o lago Tres Estanys del Mig, em Pallars Sobirà, na Espanha, aparece como uma mancha esverdeada e turva a 2.412 metros de altitude. Nas fotos de julho de 2026, está azul. Entre uma foto e outra, o que houve foi uma matança. Mas uma matança que vai mudar a forma como administramos milhares de ecossistemas na Europa.
Em setembro de 2025 e dentro do projeto europeu Life Resque Alpyr, uma equipe supervisionada pelo CSIC e pela Generalitat aplicou rotenona (um ictiocida de origem vegetal) em dois lagos do Parc Natural de l'Alt Pirineu: primeiro em Tres Estanys del Mig e, semanas depois, em Tres Estanys de Baix.
Os relatórios de dez meses depois não deixaram muito espaço para a imaginação: não restou nenhum peixe vivo, a água voltou a ficar transparente e espécies que haviam desaparecido (anfíbios e invertebrados) voltaram a ser detectadas neles. A rotenona, por sua vez, degradou-se no ritmo previsto e já não há vestígios dela rio abaixo.
Por que era preciso matar os peixes?
Os lagos estavam cheios de peixes que, para surpresa de ninguém, foram levados para lá por humanos. Originalmente, não havia peixes nesses lagos de alta montanha dos montes Pireneus. As barreiras naturais da cordilheira impediam isso.
Em algum momento, trutas foram introduzidas por causa da pesca. Mas, diferentemente da truta, o piscardo (um peixe que raramente ultrapassa 12 cm) não foi introduzido de propósito. O piscardo chegou em baldes aos Pireneus para ser usado como isca viva na pesca de trutas. O problema é que os que sobravam não voltavam para baixo com os pescadores, mas eram jogados no lago.
E, uma vez lá dentro, não há quem os detenha. Esses peixinhos põem entre 200 e 1.000 ovos por desova e, como explica Marc Ventura, coordenador do projeto no CEAB, embora não comam os de sua própria espécie, devoraram o restante da cadeia alimentar: sobretudo zooplâncton e girinos. Estes últimos passavam o dia raspando as algas das pedras. Sem eles, e sem o zooplâncton que come as microalgas, as algas dispararam e os lagos ficaram verdes.
E, para piorar, o problema tinha difícil solução: nem as armadilhas nem as redes costumam funcionar com o piscardo. Se quiséssemos acabar com eles, era preciso usar a artilharia pesada. É aí que entra a rotenona.
A rotenona basicamente bloqueia todo ser vivo que usa brânquias para respirar e, por isso, é preciso ter muito cuidado. Mas os números falam por si: no ano 2000, havia piscardos em 27% dos lagos de alta montanha dos Pireneus e, até onde sabemos, o problema só fez crescer.
Agora, em um dos lagos, a recuperação está sendo mais rápida do que no outro e ainda não sabemos exatamente por que isso acontece. Nos próximos meses, os pesquisadores analisarão tudo em detalhes e esperamos obter um guia de uso com o qual iniciar a recuperação de mais lagos.
Não está claro até onde poderemos levar essa lógica. Mas não é ruim descobrir que sempre podemos começar do zero.
Imagem | Hendrik Morkel (Unsplash)
Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.
Ver 0 Comentários