Por 12 anos ele procurou em um lixão por seu disco rígido com 600 milhões de euros em Bitcoin – agora começa um novo capítulo de sua odisseia

James Howells aparentemente não consegue se desapegar de sua perda milionária

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Bárbara Castro

Redatora

Em torno da disparada estratosférica da cotação do Bitcoin, não faltam pensamentos do tipo "e se eu soubesse antes...".

Não é para menos: a criptomoeda, criada em 2009, saltou de meros centavos para um dólar em 2011 e hoje já passa com folga dos 76.000 euros por unidade (algo em torno de R$ 470 mil).

Dá para entender perfeitamente, portanto, por que o galês James Howells moveu céu e terra para recuperar seu disco rígido com Bitcoin jogado fora por engano em 2013.

Os fatos mais importantes do caso

  • O disco rígido pertencia a um notebook e conteria a chave privada (ou seja, a senha) de uma carteira com nada menos que 8.000 Bitcoins. Na cotação recente, isso equivale a cerca de 608 milhões de euros (mais de R$ 3,7 bilhões).
  • O problema: ele está enterrado em algum ponto sob toneladas de resíduos no aterro sanitário de Newport, perto de Cardiff. Na verdade, Howells planejava descartar um HD velho e vazio, mas cometeu o erro fatal de pegar a unidade errada há mais de treze anos.
  • Uma decisão judicial proferida no início de 2025 foi desfavorável ao britânico, dando ganho de causa à Prefeitura de Newport (via Ars Technica). Ele ainda recorreu, mas o recurso acabou negado em março de 2025. Logo em seguida, ele anunciou que pretendia simplesmente comprar todo o aterro sanitário.

Em declarações à Forbes Australia, o galês afirmou ter desistido de todas as tentativas diretas de resgate da peça:

"Não pretendo mais comprar o aterro. Não busco mais escavações. Não busco mais nenhum diálogo com o conselho municipal ou seus representantes."

Mas a jornada não termina aí: ele decidiu abrir uma nova etapa de sua saga e tentar rentabilizar a perda por meio de um projeto batizado de "Ceiniog Coin", conforme divulgou em uma publicação no X (antigo Twitter).

  • Trata-se de uma moeda digital própria que seria teoricamente "lastreada" pelos Bitcoins soterrados no lixão.
  • O respaldo, no entanto, é puramente simbólico: quem adquirir esse token não terá acesso aos Bitcoins originais nem poderá resgatá-los de maneira alguma.
  • A intenção de Howells é que o novo token ganhe valor ao longo do tempo até equiparar-se aos fundos perdidos. Ele também planeja destinar parte dos lucros a projetos sociais em Newport e no sul do País de Gales.

Sem relação direta com a briga de Howells, existem planos oficiais para desativar o aterro e convertê-lo em uma usina de energia solar. O projeto deveria ter sido implementado este ano, mas sofre com atrasos operacionais.

De um jeito ou de outro, a essa altura já se pode cravar que o dispositivo de armazenamento dificilmente verá a luz do dia de novo. Se Howells conseguirá virar essa página de vez, continua sendo uma incógnita.

Em meados de 2022, o engenheiro ainda apostava em missões de busca usando cães-robôs em conjunto com especialistas em inteligência artificial (como noticiado pelo GameStar). As licenças necessárias, contudo, nunca foram concedidas pelas autoridades.

Proteção ambiental como contra-argumento

A ação judicial movida por Howells contra a administração de Newport colocava três cenários possíveis na mesa:

  1. A prefeitura entregaria o disco rígido ao autor da ação.
  2. O município pagaria uma indenização no valor equivalente aos Bitcoins que ele não consegue mais acessar.
  3. A prefeitura autorizaria o queixoso a escavar o aterro com o auxílio de uma equipe de especialistas para tentar encontrar a peça por conta própria.

A primeira opção cai por terra logo de cara, já que ninguém sabe com precisão onde o componente foi parar.

A segunda hipótese, que envolvia uma indenização bilionária bancada pelos cofres públicos, dificilmente seria aceita por qualquer tribunal responsável — algo de que o próprio autor devia ter plena consciência.

Contra a terceira via, as autoridades municipais argumentaram, entre outros pontos, que escavar milhares de metros cúbicos de lixo compactado poderia liberar gases nocivos e contaminantes no meio ambiente.

E há outro obstáculo decisivo em jogo: a titularidade do objeto.

Afinal, de quem é o disco rígido?

Ao descartar o componente no lixo, Howells abriu mão de todos os direitos de propriedade sobre ele perante a legislação britânica. A regra tem respaldo no "Control of Pollution Act" de 1974, lei voltada ao controle de poluição e resíduos.

Os argumentos do galês para tentar derrubar essa interpretação não convenceram o magistrado, que pontuou na sentença:

"A meu ver, não haveria nenhuma perspectiva realista de considerar injustificável a retenção do disco rígido pela ré. O réu não o reteve em benefício próprio ou por mero desejo de posse. Manteve-o sob guarda simplesmente porque ele estava enterrado no aterro."

Para piorar a situação do requerente, a ação judicial só foi protocolada em 2024, apesar de o fato ter ocorrido em 2013 e de toda a situação ser amplamente conhecida desde então.

Como a legislação do país prevê um prazo prescricional de seis anos para esse tipo de litígio, qualquer direito de pleito já havia expirado em 2019.

As chances reais sempre foram mínimas

No fim das contas, é altamente duvidoso que essa caçada pudesse ter um final feliz algum dia.

  • Primeiro, porque é quase impossível que as trilhas magnéticas do HD tenham sobrevivido intactas após mais de dez anos submetidas à pressão colossal, à umidade e ao chorume das montanhas de lixo.
  • Segundo, vasculhar uma montanha de 350.000 toneladas de resíduos equivale a achar uma agulha num palheiro cósmico (mesmo que, em 2013, técnicos tenham delimitado um quadrante de 2.000 metros quadrados com cerca de 15.000 toneladas onde o objeto estaria "provavelmente" localizado).

A missão, portanto, já nasceu fadada ao fracasso técnico. E, a cada ano que passa, as chances de resgatar qualquer byte funcional se aproximam de zero absoluto.

Matéria traduzida e adaptada do site GameStar*

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